Diário da espera | Parêntese

Rosa Maria Bueno Fischer: Quinze dias em março

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Rosa Maria Bueno Fischer: Quinze dias em março Quarta-feira, 18 de março de 2020 — Tudo certo por aí, filha? (Na medida do possível). Que tempos, hein?— Na medida… Tomando café com a Juju— O Ministro da Saúde diz que a coisa grave vai até junho.— Não dormi bem.— Imagino. Mas temos que enfrentar. Vou avisar a Ângela que não vou amanhã à análise.— A minha vai atender por Skype.— Vou ver com a Ângela.(…)— Podemos descer? Queria falar contigo. Vou com Julinha. Acho que vcs precisam/merecem ficar juntas. Vamos para a praia amanhã. Não sei até quando. Julinha pinta o corpo todo, dança pelas peças estreitas de minha casa, exagerada, como a prever uma desarrumação geral.  Mais tarde, Jane chega da rua, com as compras que por aqui batizaram de “Terceira Guerra”. Sou daquelas que precisam ter tudo e um pouco mais na despensa – talvez marcada que sou por um outro março, em 64, quando meu pai estocou sacos e sacos de arroz e farinha, temeroso de faltar comida à penca de filhos. Sobre o piano, Jane deixa também halteres pra minhas aulas virtuais de Pilates. Faz calor. Tomamos café as três. Julinha e eu imitamos uma moradora do prédio, de voz fina e monocórdia. Rimos sem medo. Livres, íntimas.É uma cena comum, numa cidade comum, de pessoas com uma vida comum.Só que não. Lembro que poucos dias atrás experimentei aquele estado meio assim poético que por vezes me pega. De acordar e sentir carinho por tudo, uma pedra, um galho de árvore; até a voz da tal vizinha me enternece. Chego a exclamar, como na crônica de Clarice, que sou a mãe de Deus. Mas em poucos segundos é o avesso da epifania. Tropeço nele. O rato morto. O rato ruivo de Clarice (“Então era assim, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato?”).  Os ratos da normalidade interrompida, de Camus (“Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas”).  O vírus sem perdão, invisível, aleatório e absurdo, que julgávamos ser coisa da China, depois da Itália, coisa “do outro mundo”, hoje é nosso. Cai a primeira ficha. Tenho 70 anos, sou asmática, ficarei isolada. Não sei até quando. Quarta-feira, 25 de março de 2020 — Sonhei contigo hoje, filha. A casa de Novo Hamburgo…— Conta…— Meu carro parado lá na garagem do pai, mas quem tinha a chave era tu. Corta pro Residencial. A cuidadora dos tios mentiu que era psiquiatra, tava enrolando a Tia Faeca. Fui eu que descobri tudo e denunciei.— Bah, mãe, sonho cheio de angústia…— No sonho a tal cuidadora tomou todo o suco de abacaxi que fiz. — Ficar sem o suco = despensa vazia… Tu e a “Terceira Guerra”…— Falar nisso, chegaram agora os meus orgânicos. Entregadores de máscara, tri cuidadosos.— Olha o que me disse a Julinha: “É cansativo ter criança em casa, né, mãe? Mas também é bom ter criança em casa, tu não acha?”.(…)— Filha, […]

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Quarta-feira, 18 de março de 2020 — Tudo certo por aí, filha? (Na medida do possível). Que tempos, hein?— Na medida… Tomando café com a Juju— O Ministro da Saúde diz que a coisa grave vai até junho.— Não dormi bem.— Imagino. Mas temos que enfrentar. Vou avisar a Ângela que não vou amanhã à análise.— A minha vai atender por Skype.— Vou ver com a Ângela.(…)— Podemos descer? Queria falar contigo. Vou com Julinha. Acho que vcs precisam/merecem ficar juntas. Vamos para a praia amanhã. Não sei até quando. Julinha pinta o corpo todo, dança pelas peças estreitas de minha casa, exagerada, como a prever uma desarrumação geral.  Mais tarde, Jane chega da rua, com as compras que por aqui batizaram de “Terceira Guerra”. Sou daquelas que precisam ter tudo e um pouco mais na despensa – talvez marcada que sou por um outro março, em 64, quando meu pai estocou sacos e sacos de arroz e farinha, temeroso de faltar comida à penca de filhos. Sobre o piano, Jane deixa também halteres pra minhas aulas virtuais de Pilates. Faz calor. Tomamos café as três. Julinha e eu imitamos uma moradora do prédio, de voz fina e monocórdia. Rimos sem medo. Livres, íntimas.É uma cena comum, numa cidade comum, de pessoas com uma vida comum.Só que não. Lembro que poucos dias atrás experimentei aquele estado meio assim poético que por vezes me pega. De acordar e sentir carinho por tudo, uma pedra, um galho de árvore; até a voz da tal vizinha me enternece. Chego a exclamar, como na crônica de Clarice, que sou a mãe de Deus. Mas em poucos segundos é o avesso da epifania. Tropeço nele. O rato morto. O rato ruivo de Clarice (“Então era assim, eu andando pelo mundo sem pedir nada, sem precisar de nada, amando de puro amor inocente, e Deus a me mostrar o seu rato?”).  Os ratos da normalidade interrompida, de Camus (“Houve no mundo tantas pestes quanto guerras. E contudo, as pestes, como as guerras, encontram sempre as pessoas igualmente desprevenidas”).  O vírus sem perdão, invisível, aleatório e absurdo, que julgávamos ser coisa da China, depois da Itália, coisa “do outro mundo”, hoje é nosso. Cai a primeira ficha. Tenho 70 anos, sou asmática, ficarei isolada. Não sei até quando. Quarta-feira, 25 de março de 2020 — Sonhei contigo hoje, filha. A casa de Novo Hamburgo…— Conta…— Meu carro parado lá na garagem do pai, mas quem tinha a chave era tu. Corta pro Residencial. A cuidadora dos tios mentiu que era psiquiatra, tava enrolando a Tia Faeca. Fui eu que descobri tudo e denunciei.— Bah, mãe, sonho cheio de angústia…— No sonho a tal cuidadora tomou todo o suco de abacaxi que fiz. — Ficar sem o suco = despensa vazia… Tu e a “Terceira Guerra”…— Falar nisso, chegaram agora os meus orgânicos. Entregadores de máscara, tri cuidadosos.— Olha o que me disse a Julinha: “É cansativo ter criança em casa, né, mãe? Mas também é bom ter criança em casa, tu não acha?”.(…)— Filha, […]

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