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As Cismas do Destino/ Destiny’s Delusions

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As Cismas do Destino/ Destiny’s Delusions Augusto dos Anjos: autor de "As Cismas do Destino" (Foto: reprodução)

“As Cismas do Destino”, de Augusto dos Anjos, é um monólogo dramático em quatro partes, publicado primeiramente em 1908, e depois como parte do único livro de Augusto, Eu, em 1912. O monólogo narra uma caminhada noturna pelo Recife do início do século XX, mais precisamente da Ponte Buarque de Macedo à Casa Agra (à época, uma funerária; hoje, um estacionamento).  Ao longo de sua caminhada, o narrador testemunha a decadência da vida urbana, amedrontado (mas em certa medida, seduzido) por seus seres notívagos, reais ou imaginários: ladrões, prostitutas, bêbados, esqueletos, duendes, trasgos. Num dado momento do passeio, o narrador depara com a mais horrenda dessas figuras: seu próprio Destino, que demonstra a inutilidade da existência. Segue a primeira parte do monólogo, com a versão que fiz para a língua inglesa.

As Cismas do Destino

I

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com a minha sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!

Na austera abóbada alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia… o calçamento
Sáxeo, de asfalto rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.

Lembro-me bem. A ponte era comprida,
E a minha sombra enorme enchia a ponte,
Como uma pele de rinoceronte
Estendida por toda a minha vida!

A noite fecundava o ovo dos vícios
Animais. Do carvão da treva imensa
Caía um ar danado de doença
Sobre a cara geral dos edifícios!

Tal uma horda feroz de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta,
Uivava dentro do eu, com a boca aberta,
A matilha espantada dos instintos!

Era como se, na alma da cidade,
Profundamente lúbrica e revolta,
Mostrando as carnes, uma besta solta
Soltasse o berro da animalidade.

E aprofundando o raciocínio obscuro,
Eu vi, então, á luz de áureos reflexos,
O trabalho genésico dos sexos,
Fazendo à noite os homens do Futuro.

Livres de microscópios e escalpelos, 
Dançavam, parodiando saraus cínicos,
Bilhões de centrossomas apolínicos 
Na câmara promíscua do vitellus.

Mas, a irritar-me os globos oculares,
Apregoando e alardeando a cor nojenta,
Fetos magros, ainda na placenta,
Estendiam-me as mãos rudimentares!

Mostravam-me o apriorismo incognoscível
Dessa fatalidade igualitária,
Que fez minha família originária
Do antro daquela fábrica terrível!

A corrente atmosférica mais forte
Zunia. E, na ígnea crosta do Cruzeiro,
Julgava eu ver o fúnebre candieiro
Que há de me alumiar na hora da morte.

Ninguém compreendia o meu soluço,
Nem mesmo Deus! Da roupa pelas brechas,
O vento bravo me atirava flechas
E aplicações hiemais de gelo russo.

A vingança dos mundos astronômicos
Enviava á terra extraordinária faca,
Posta em rija adesão de goma laca
Sobre os meus elementos anatômicos.

Ah! Com certeza, Deus me castigava!
Por toda a parte, como um réu confesso,
Havia um juiz que lia o meu processo
E uma forca especial que me esperava!

Mas o vento cessara por instantes
Ou, pelo menos, o ignis sapiens do Orco
Abafava-me o peito arqueado e porco
Num núcleo de substâncias abrasantes.

É bem possível que eu um dia cegue. 
No ardor desta letal tórrida zona,
A cor do sangue é a cor que me impressiona 
E a que mais neste mundo me persegue!

Essa obsessão cromática me abate.
Não sei por que me vêm sempre à lembrança
O estômago esfaqueado de uma criança
E um pedaço de víscera escarlate.

Quisera qualquer coisa provisória
Que a minha cerebral caverna entrasse,
E até ao fim, cortasse e recortasse
A faculdade aziaga da memória.

Na ascensão barométrica da calma,
Eu bem sabia, ansiado e contrafeito,
Que uma população doente do peito
Tossia sem remédio na minh’alma!

E o cuspo que essa hereditária tosse
Golfava, à guisa de ácido resíduo,
Não era o cuspo só de um indivíduo
Minado pela tísica precoce.

Não! Não era o meu cuspo, com certeza
Era a expectoração pútrida e crassa
Dos brônquios pulmonares de uma raça
Que violou as leis da Natureza!

Era antes uma tosse ubíqua, estranha,
Igual ao ruído de um calhau redondo
Arremessado no apogeu do estrondo,
Pelos fundibulários da montanha!

E a saliva daqueles infelizes
Inchava, em minha boca, de tal arte,
Que eu, para não cuspir por toda a parte,
Ia engolindo, aos poucos, a hemoptísis!

Na alta alucinação de minhas cismas 
O microcosmos líquido da gota
Tinha a abundância de uma artéria rota, 
Arrebentada pelos aneurismas.

Chegou-me o estado máximo da mágoa!
Duas, três, quatro, cinco, seis e sete
Vezes que eu me furei com um canivete,
A hemoglobina vinha cheia de água!

Cuspo, cujas caudais meus beiços regam,
Sob a forma de mínimas camândulas,
Benditas sejam todas essas glândulas,
Que, quotidianamente, te segregam!

Escarrar de um abismo noutro abismo, 
Mandando ao Céu o fumo de um cigarro, 
Há mais filosofia neste escarro 
Do que em toda a moral do Cristianismo!

Porque, se no orbe oval que os meus pés tocam
Eu não deixasse o meu cuspo carrasco,
Jamais exprimiria o acérrimo asco
Que os canalhas do mundo me provocam!


Destiny’s Delusions

I

Recife. Buarque de Macedo bridge.

I, when heading towards Casa do Agra,

Saw my shadow foreshadowed from afar,

And at the thought of Destiny, I cringed!

.

High up in the stern dome, phosphoric stars

Whitely glistered… the pavement of the street,

Rocky, rigid asphalt, vitreous, bleak,

Carried the smoothness of a skull unscarred.

.

I do remember. ‘Twas such a long distance

And my shadow did cover it, enormous,

Like the leather of a defunct rhinoceros

Spreading out over my entire existence!

.

The night fertilized animal vices’

Eggs. From the immense coal of darkness, there fell

A doomed air of disease, which could be felt

Upon the buildings’ face against the skies!

.

Like a ferocious hoard of hungry hounds

Across a station for so long bereft

A howl was heard inside my deepest self,

The stunnèd pack of instincts’ open mouth!

.

It was as if within the city’s soul,

Deeply revolted, profoundly lubricious,

With all its flesh exposed, a wild and vicious

Bestial bellow had come from below.

.

As I kept deepening my obscure reasons,

Underneath the light of gilded reflections,

I saw the genesial works of sexual

Relations, fabricating Future creatures.

.

Delivered from all microscopes and scalpels,

There danced around, in cynical conventicles,

Billions of lofty apollonian centrosomes

In the vitellus’ libidinous alcove.

.

With irritated eyeballs, I could see

Out loud praising and proclaiming their horrid

Colour, meagre foeti, immersed in water,

Reach their rudimentary fingers to me!

.

They show’d me a priori the unfathomable

Origins of this foul levelling fatality

Which somehow had produced my entire family

Within the dungeons of that dreadful factory!

.

The strongest draft in all the atmosphere

Wuthered. And, in the South Cross’ fiery crust,

I though that I could see the mournful lustre,

That shall be by me in my deadly agony. 

.

No-one could understand my sobs and cries,

Not even God! Through my clothes’ open gashes,

The wild wind was shooting its sharpest arrows,

Applying its hiëmal Russian ice.

.

The revenge of these astronomic stars

Sent to this Earth the extraordinary dagger,

Which was coated in the most rigid lacquer

And placed upon my anatomic parts.

.

O! It was God who was chastising me!

Everywhere there was a judge to condemn

Me, and so there were these horrid headsmen

Which I would have to wait for, agonisingly!

.

Howe’er, the wind had ceased for a few moments

Or ‘twas Orcus’ ignis sapiens which wreak’d,

Havoc upon my chest, filthy and weak,

In a nucleus of abrasive potions.

.

It is likely that one day I’ll go blind.

In this zone’s sick sultriness hot and killing

The red colour of blood is the bewildering

Colour that haunts me where’er I hide!

.

This chromatic obsession overtakes me.

I know not why, but this crosses my mind:

The stabbed stomach of a strange little child

And a morsel of its small scarlet brains.

.

So I would fain something, however temporary,

Would go inside my dark cerebral cave

And to the end, would slice and slit this rave,

The ominous faculty they call memory.

.

My calm would decrease as the pressure rose;

I knew that, frightened and against my will,

A population that was strongly ill,

Was coughing helplessly within my soul!

.

And the hereditary cough had brought up

This spit, which seemed some acid residue,

It was not the spit of this one man’s flesh

Riddled with phthisis most precocious sorrows.

.

Nay! It was not my spit, of that I’m sure,

It was the putrid, rough expectoration

From the bronchi of countless generations

Which had broken Nature’s every single law!

.

It was but a ubiquitous, strange, cough

Resembling the loud noise of a round boulder

Arrowed from the mountain’s higher and colder

Peaks, by marksmen high upon the cliff’s rocks!

.

And ‘twas those same wretched men’s thick saliva 

Which would swell, in my mouth, so very oddly,

That I had, so as not to spit, to swallow,

The haemoptysis from my sick bronchi!

.

In all of my delusions’ deep deliriums

The liquid microcosm of a drop

Was as abundant as some sort of rotten

Artery, which the aneurisms had filled.

.

I was overwhelmed with the utmost woe!

Once, twice, thrice, four, five, six and seven times

I pierced myself with the sharpest of knives

And then came the water-filled haemoglobins!

.

O, spit, whose trickling streams water my lips, 

In the shape of these minuscule glass-beads.

Blessèd be all of these my fine glandules

Which, unceasingly, keep producing this!

.

Expectorating into an abyss

From an abyss, by sending cigarette

Smoke Heavenwards. Christian morality’s less

Philosophical than this very spit!

.

For, if on the oval orb my feet touch

I should never spill my slaughterous spit

Never would I express the sour sickness

The scoundrels of this world cause me to suffer!

A tradução completa pode ser encontrada em minha dissertação de mestrado. A tradução e a pesquisa para realizá-la tiveram apoio financeiro da CAPES.


Pedro Reis é Mestre em Estudos da Tradução pela Universidade de Brasília. Publicou, pela editora Lumme, uma tradução de Música de Câmara, de James Joyce, em parceria com Eclair Antonio de Almeida Filho. Também pela editora Lumme, traduziu, entre outros, a Poesia Completa de George Orwell, no prelo.

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