Tradução

Traduzir, ler, escrever

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Traduzir, ler, escrever Juan José Saer com Beatriz Sarlo, em 1987

Da série: Tradutores pensam a tradução (org. Karina Lucena)

Quem gosta muito de ler sabe que não dá para viver apenas com livros escritos originalmente em sua própria língua. A fome de leitura de um hipotético leitor brasileiro deverá ser saciada com livros escritos por autores que escrevem em português e por livros escritos por autores estrangeiros que, por um motivo ou outro, acabam sendo vertidos ao português por aquele profissional amado/odiado por todos que é o tradutor. Isso pode se aplicar a qualquer país, a qualquer língua (será mesmo? – um ponto aberto à discussão).

O tamanho da encrenca é ainda maior quando se trata de alguém que, além de ler, gosta de escrever, ou tem a pretensão de ser escritor, de se tornar um escritor (tanto quanto possível) profissional. Este cidadão ou cidadã pode tomar como modelo tanto um escritor que escreve em sua própria língua quanto algum escritor estrangeiro que ele/ela leu, muito provavelmente, em tradução. Na história da literatura, são inúmeros os exemplos do impacto que uma determinada tradução, ou um conjunto de traduções, exerceu sobre jovens aspirantes a escritores. Vamos mencionar aqui apenas uns poucos casos, restritos ao âmbito latino-americano.

Em 1945, a Editorial Santiago Rueda, de Buenos Aires, publica a tradução do Ulysses, de James Joyce, por José Salas Subirat, um literato que ganhava a vida como corretor de seguros. A tradução foi devidamente desdenhada pela elite intelectual portenha – Borges, Bioy Casares et caterva –, que podia se dar ao luxo de ler o Ulysses em inglês, e acabou por encontrar seus leitores ideais numa geração posterior de escritores. Quem soube valorizar a tradução de Salas Subirat e avaliar o que ela significou para a tradição literária argentina, especialmente para alguns leitores que aspiravam à condição de escritores, foi Juan José Saer. Em texto publicado em 2004, Saer se refere não apenas ao Ulises argentino mas também ao trabalho desenvolvido pela editora que o publicou, destacando sua importância para os leitores de sua geração, ao publicar traduções de autores como William Faulkner, John Dos Passos, Italo Svevo, Marcel Proust, Nietszche e Freud (deste, as obras completas, em dezoito volumes).

Saer afirma que “esses livros circulavam copiosamente entre todos aqueles que se interessavam pelos problemas literários, filosóficos e culturais do século XX. Formavam parte dos livros realmente indispensáveis em qualquer boa biblioteca”. No que se refere ao Ulises de Salas Subirat, ele não economiza elogios: fala de “seus inesgotáveis achados verbais” e confessa que “toda pessoa com veleidades de narrador que andava entre os dezoito e os trinta anos, em Santa Fé, Paraná, Rosario e Buenos Aires, conhecia-os de memória e os citava. Muitos escritores da geração de 1950 ou de 1960 aprenderam vários de seus recursos e de suas técnicas narrativas com essa tradução”. Para Saer, “o rio turbulento da prosa joyceana, ao ser traduzido ao castelhano por um homem de Buenos Aires, arrastava consigo a matéria vivente da fala que nenhum outro autor – afora, talvez, Roberto Arlt – havia sido capaz de utilizar com tanta inventividade, exatidão e liberdade”.

Roberto Arlt, então. No prólogo que escreveu para seu romance Los lanzallamas, de 1931, fica explicitada a relação da elite intelectual portenha com a literatura estrangeira: “Depois, esses mesmos pilares da sociedade me falaram de James Joyce, arregalando os olhos. (…) Mas James Joyce é inglês. James Joyce não foi traduzido para o castelhano, e é de bom gosto encher a boca falando dele. No dia em que James Joyce estiver ao alcance de todos os bolsos, os pilares da sociedade inventarão para si um novo ídolo que só será lido por meia dúzia de iniciados”. Esse é Arlt descrevendo em poucas palavras a atitude típica das vanguardas.

A tradução do livro de Joyce acabou aparecendo poucos anos depois da morte de Arlt, e, mesmo que pudesse não estar exatamente “ao alcance de todos os bolsos”, tornou a obra acessível a um público muito mais amplo – justamente o papel que a tradução, em geral, tende a cumprir. Nem é o caso de considerar se a tradução era boa ou má: basta lembrar da importância que as traduções de Dostoiévski e de outros escritores russos publicadas pela Editorial Tor tiveram para a definição do estilo de Roberto Arlt. Segundo Ricardo Piglia, foi “no estilo dos péssimos tradutores espanhóis” responsáveis por aquelas traduções vendidas em edições baratas, em bancas de jornal, que Arlt encontrou uma espécie de modelo literário para seus romances e contos.

Ninguém conseguiria dizer isso de maneira mais consistente, então transcrevo aqui, em tradução caseira, trecho de um ensaio publicado pelo professor argentino José Luis De Diego em 2019, no qual se refere às traduções de que acabamos de falar: 

Nos dois casos, as traduções, embora ruins, acabam por se tornar, no processo de apropriação, um material de assombrosa produtividade. Assim como Piglia sustenta que Arlt foi um grande escritor não apesar de ter se formado com base em traduções ruins, mas porque assim o fez, Saer dirá que Salas Subirat – que era acusado de ser um tradutor improvisado – acaba sendo um escritor tanto melhor quanto pior traduz. Assim, dois dos autores que ocupam o centro do atual cânone de nossas letras colocaram em destaque uma espécie de inversão de valores do duplo circuito das traduções: se a elite da aristocracia literária jactava-se de ler nas línguas originais, em especial em francês e em inglês, e condenava as traduções imperfeitas, os jovens que se formavam por fora desse circuito, lendo o que caía em suas mãos, produzem uma curiosa reivindicação desses textos maltratados; colocam num lugar privilegiado, portanto, o trabalho dos editores e a prosa dos tradutores, por meio da qual travaram um primeiro contato com textos decisivos para sua formação.

Um outro caso, agora. Entre os anos 1930 e 1950, Buenos Aires foi, ao lado do México, o grande polo editorial da América Latina e um centro exportador de livros para todo o continente. Quem se beneficiou dessa extensa circulação de livros foi um certo Gabriel García Márquez, que integrou, entre o final dos anos 1940 e meados dos anos 1950, o chamado Grupo de Barranquilla, ao lado de escritores como Ramón Vinyes, José Félix Fuenmayor, Álvaro Cepeda Samudio, Germán Vargas e Alejandro Obregón, entre outros. Numa longa entrevista concedida ao jornalista Plinio Apuleyo Mendoza, García Márquez revela que aquela foi para ele uma época de deslumbramento e de descobertas e que seus amigos lhe emprestavam todos os livros sobre os quais conversavam noite adentro. E completa: “Além disso, havia um amigo livreiro a quem ajudávamos a fazer os pedidos. Cada vez que chegava um caixote de livros de Buenos Aires, fazíamos uma festa. Eram os livros da Sudamericana, da Losada, da Sur, aquelas coisas magníficas traduzidas pelos amigos de Borges.” Noutros trechos da entrevista, García Márquez refere-se especialmente a Mrs. Dalloway, de Virginia Woolf (traduzido por Ernesto Palacio), e a A metamorfose, de Kafka (com tradução atribuída a Borges, só que não), como leituras que o influenciaram de maneira decisiva.

Os “amigos de Borges”: a elite intelectual portenha que lê em francês e em inglês – e mesmo em alemão! – e que está, portanto, “autorizada” a traduzir para quem só lê em castelhano (como Arlt, por exemplo, filho de imigrantes). Assim como Saer e seus amigos na Argentina, García Márquez e seus amigos colombianos liam traduções de autores como Joyce, Woolf, Steinbeck, Caldwell, Dos Passos, Hemingway, Sherwood Anderson, Theodore Dreiser e William Faulkner, todas publicadas pelas grandes editoras argentinas. Mais ou menos os mesmos autores cujas obras também estavam sendo traduzidas no Brasil na mesma época.

Sudamericana, Losada, Sur, Emecé, Santiago Rueda: são estas as grandes editoras argentinas que a partir de meados dos anos 1930 passaram a inundar o mercado latino-americano com seus livros – incluindo os livros traduzidos. Se alguém se lembrou da Livraria do Globo Editora, de Porto Alegre, fez muito bem, porque ela cumpriu um papel análogo no Brasil, especialmente com os títulos publicados em sua Coleção Nobel entre os anos 1930 e 1950. Em artigo de 1977, o romancista Osman Lins destaca a importância da coleção: “Muitos dos que, como eu, despertávamos para a literatura em pontos afastados do Brasil e carecíamos de informações sobre autores e obras do nosso tempo, encontrávamos na Nobel uma espécie de guia, uma porta aberta para segmentos importantes do que se escrevia em nosso século.”

Foi em alguns de seus volumes que Lins encontrou “tons e soluções frásicas que eu buscava, sem encontrar, em originais da nossa língua”, e dá como exemplo a versão de Lord Jim, de Conrad, feita por Mario Quintana, sem deixar de falar “no Orlando, de Cecília Meireles, e no Retrato do artista quando jovem, de José Geraldo Vieira”. Vejam bem: nas palavras de Lins, o Orlando não é de Virginia Woolf, e sim de Cecília Meireles, e o Retrato do artista… não é de Joyce, mas de José Geraldo Vieira. Nessas traduções, Lins encontrou “páginas de prosa que, sem serem superiores ao que eles [os tradutores] pudessem escrever, tocavam-me de um modo estranho e novo”. Em seu “depoimento comovido”, que ele faz questão de frisar que é o depoimento de toda uma geração, Osman Lins chega a escrever que o convívio do escritor brasileiro com outras literaturas “pode ocorrer mediante o conhecimento de outras línguas”, mas “produz melhores resultados quando o escritor dispõe de um número apreciável de obras bem traduzidas”. E nesse trecho baixa no escritor pernambucano uma espécie de Itamar Even-Zohar avant la lettre: “a tradução tende a exercer pressões renovadoras sobre as estruturas linguísticas no país receptor”.

Sei que não está mais na moda falar em “influência”, mas é inegável que qualquer leitura – seja ou não uma tradução – deixa marcas num leitor, mais ainda se esse leitor pretende ser também um escritor. Alguém aí falou em Machado de Assis como leitor de Laurence Sterne? Ou de Caio Fernando Abreu como leitor de Julio Cortázar? Os exemplos poderiam se estender ao infinito e constituem um fascinante campo de estudos.


Sérgio Karam, tradutor do inglês e do espanhol, setembro de 2021

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