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Wenders filma o encanto da rotina em “Dias Perfeitos”

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Wenders filma o encanto da rotina em “Dias Perfeitos” O2 Play/Divulgação

Um dos maiores nomes do cinema moderno internacional, o alemão Wim Wenders revisita em Dias Perfeitos (2023) temáticas e influências centrais em sua trajetória. Representante do Japão na disputa pelo Oscar de Melhor Filme Internacional deste ano, o longa acompanha um homem de meia idade que leva uma vida modesta e serena limpando banheiros públicos de Tóquio.

Em Dias Perfeitos, Hirayama (Koji Yakusho) segue uma rotina tranquila, levantando-se todos os dias cedo pela manhã para trabalhar. Seu cotidiano alterna o trabalho na limpeza de banheiros públicos do bairro de Shibuya – modernos equipamentos com design arrojado, criados para as Olimpíadas de Verão de 2020 – com momentos dedicados a suas paixões: a música e a leitura, as árvores e a fotografia. Esse dia a dia regrado vai sofrer a interferência de alguns encontros inesperados, que acabam forçando o pacato Hirayama a se reconectar com o passado.

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O2 Play/Divulgação

Dias Perfeitos é uma obra-prima de delicadeza e sensibilidade, inspirada pelo cinema humanista do diretor japonês Yasujiro Ozu (1903 – 1963), diretor de clássicos como Pai e Filha (1949) e Era Uma Vez em Tóquio (1953) idolatrado por Wim Wenders, a quem o realizador alemão dedicou o documentário Tokyo-Ga (1985). Não por acaso, o protagonista de Dias Perfeitos tem o mesmo nome do personagem principal de A Rotina Tem Seu Encanto (1962), último filme de Ozu.

Astro de títulos como Dança Comigo? (1996), Babel (2006) e 13 Assassinos (2010), o japonês Koji Yakusho – vencedor do prêmio de melhor ator no Festival de Cannes por Dias Perfeitos – imprime calor humano ao simpático Hirayama, sujeito silencioso que evita falar de si e do passado. O roteiro de Wenders e Takuma Takasaki respeita a discrição do protagonista, evitando desvelar os segredos de sua esfinge, criando uma conexão com o espectador por meio do recato, da empatia e da simplicidade.

O2 Play/Divulgação

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Como é praxe nos filmes do cineasta alemão, a trilha sonora de Dias Perfeitos pontua o desenrolar da trama com temas conhecidos do pop e do rock – neste caso, promovendo um curioso encontro entre Oriente e Ocidente com as músicas de ícones como Lou Reed, The Animals, Otis Redding, Nina Simone, Patti Smith, The Rolling Stones e Van Morrison que Hirayama escuta no toca-fitas de sua van. Já entre as recorrências literárias, está Patricia Highsmith, escritora estadunidense de quem Wenders levou para o cinema a novela O Amigo Americano (1977) e autora da coletânea de contos Eleven, uma das leituras do protagonista do filme.

Intercalando a narrativa com cenas que evocam fragmentos de sonhos de Hirayama, mostrados como fugidias danças de luzes e sombras projetadas, Dias Perfeitos também remete a outra referência japonesa em seu elogio da sutileza e da impermanência: o ensaio Em Louvor da Sombra (1933), em que o autor Junichiro Tanizaki analisa como as dimensões estéticas, poéticas, filosóficas e óticas das sombras influenciam a cultura japonesa. Dica: assista ao filme até depois dos créditos finais para saber um pouco mais sobre a admiração nipônica pelo que é belo e fugaz.

O2 Play/Divulgação

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Dias Perfeitos: * * * * *

COTAÇÕES

* * * * * ótimo     * * * * muito bom     * * * bom     * * regular     * ruim

Assista ao trailer de Dias Perfeitos:

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