Literatura | Reportagens

Julia Dantas narra transformações a partir de frestas do acaso em “Ela Se Chama Rodolfo”

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Julia Dantas narra transformações a partir de frestas do acaso em “Ela Se Chama Rodolfo” Julia Dantas. Foto: Davi Boaventura

A escritora Julia Dantas lança nesta sexta-feira (29/4), às 19h, na Livraria Taverna, o romance Ela Se Chama Rodolfo (DBA Editora). O título da obra faz referência ao nome de uma tartaruga encontrada pelo protagonista, Murilo, que percorre Porto Alegre de norte a sul em busca de alguém que acolha o réptil.

O encontro do personagem com o animal acontece por acaso, no apartamento recém-alugado por Murilo. Diante da situação inusitada, o protagonista procura dar as mínimas condições de vida urbana digna para Rodolfo. Pouco tempo depois, a proprietária do apartamento, Francesca, escreve para Murilo contando que, ao sair de casa em “circunstâncias impiedosas”, acabou abandonando o bicho.

Na troca de mensagens com Murilo, Francesca indica pessoas que poderiam receber Rodolfo em suas casas – tarefa que se revelaria um tanto complicada: “mais ridículo ainda do que se chamar Rodolfo era que a tartaruga tivesse sido esquecida, que não fosse aceita por mais ninguém e que Murilo estivesse agora no terceiro ônibus para atravessar oito bairros e entregá-la a um produtor de cogumelos orgânicos na zona rural de Porto Alegre”, narra o livro.

Capa: DBA Editora

Embora incomodado com a recorrente recusa de adoção da tartaruga, Murilo se deixa levar pelas correspondências com a misteriosa Francesca e pelo convívio com Camilo – amigo dela, que passa a dividir o apartamento com o protagonista. Os eventos desencadeados na vida de Murilo – filho de uma faxineira e um feirante, formado em Letras e porteiro noturno – se misturam à ruminação da crise de seu namoro com Gabbriela, que partiu para um retiro em Goiás.

Na visão da autora – leia a entrevista a seguir –, “apesar de certamente desencantado, ainda resta no Murilo alguma faísca, alguma possibilidade de desejo que estava ali, só esperando que aparecesse alguém com uma provocação, e não existe melhor provocação que um jogo meio absurdo e beirando o ridículo”.

“Acho que o que salva o Murilo – e que deve salvar muita gente pelo mundo –, é essa resiliência de manter uma fresta aberta para a vida mesmo quando a ideia de vida parece pouco mais que uma piada de mau gosto”, completa Dantas.

Julia Dantas. Foto: Davi Boaventura

A escritora Moema Vilela, que assina a contracapa do livro, destaca os atribulados processos de abertura que unem os personagens do romance: “Como as vias que o protagonista percorre na cidade, a jornada é sinuosa e cheia de ladeiras. Em embates com a morte, a doença e o fim dos relacionamentos, os personagens se abrem em suas vulnerabilidades, conflitos e anseios. Assim, ensaiam arranhar a couraça de dinâmicas de opressão, especialmente relacionadas ao gênero”.

Ela se Chama Rodolfo é fruto do mestrado em Escrita Criativa (PUCRS) concluído em 2017 por Dantas. Em 2015, ela publicou Ruína y Leveza (Não Editora), romance finalista do Prêmio São Paulo de Literatura 2016. Em ambas as narrativas, de modos bastante diversos, deslocamentos mobilizam as descobertas dos personagens: “ao contrário da protagonista de Ruína y Leveza que estava sempre indo mais além, indo para o próximo lugar, o Murilo perambula pelos bairros, mas sempre volta ao seu apartamento. Não é o circuito ideal para uma narrativa em movimento, e isso me interessava: como criar uma road story para alguém que precisa dormir na sua casa todas as noites?”, conta a autora, que em 2020 coorganizou com Rodrigo Rosp a antologia Fake Fiction: Contos sobre um Brasil Onde Tudo Pode Ser Verdade (Dublinense) – relembre a matéria sobre a obra.

Leia a entrevista com a escritora Julia Dantas.

Nos conta um pouco sobre o processo de escrita do livro. De que forma ele foi se construindo desde o teu mestrado?

Ele era uma vaga ideia quando entrei no mestrado, e minha intenção era justamente desenvolver o enredo ao longo do curso. Ao final de dois anos, eu tinha uma possível primeira versão: algo com começo, meio e fim, onde já estavam todos os personagens que estão ali hoje, e com os principais conflitos elaborados. Mas, depois disso, deixei o livro de molho por um longo tempo, sem reler nem editar (em parte porque eu imediatamente entrei no doutorado e meu tempo foi consumido aí). Quando voltei ao texto, pude trabalhar nele com um olhar fresco, com maior possibilidade de enxergá-lo como um objeto desgrudado de mim. E aí vieram as primeiras leituras, muitos amigos foram convocados para isso – como tu bem sabe – e a cada retorno de comentários eu maturava as ideias e ia criando uma nova versão. Nisso, passaram-se esses anos todos, mas o resultado é um livro que, acredito, teve um bom amadurecimento.

Murilo se deixa levar por uma essa espécie de jogo provocado por Francesca que o obriga a encontrar desconhecidos com uma tarefa um tanto absurda. Embora um tanto desencantado, Murilo se mostra bastante resiliente, né?

Sim, acho que resiliente é uma boa palavra. Além disso, apesar de certamente desencantado, ainda resta no Murilo alguma faísca, alguma possibilidade de desejo que estava ali, só esperando que aparecesse alguém com uma provocação, e não existe melhor provocação que um jogo meio absurdo e beirando o ridículo. Acho que o que salva o Murilo – e que deve salvar muita gente pelo mundo –, é essa resiliência de manter uma fresta aberta para a vida mesmo quando a ideia de vida parece pouco mais que uma piada de mau gosto. Mas, pelo menos na minha experiência, se a gente é teimoso por tempo suficiente em manter essa fresta aberta, uma hora a sorte entra por ela.

As tentativas de entrega da tartaruga a possíveis tutores se dão em uma sequência de deslocamentos pela cidade. Em alguma medida, parece haver uma relação com o papel que a viagem desempenha em Ruína y Leveza.

Há muita relação, sem dúvida. Desde o começo eu sabia que queria escrever uma road story (ou uma narrativa de estrada, em melhor português) dentro da cidade de Porto Alegre. Havia nisso umas três dimensões de desejo. Um desejo pessoal de quem voltava a morar aqui após alguns anos de vida nômade e queria se reencontrar com a cidade; um desafio estético de construir essa versão literária de Porto Alegre, tentando fazer com que ela fosse reconhecível por quem vive aqui, mas também fosse visível e interessante para quem nunca veio; e um desafio técnico de criar essa história num formato que é algo episódico, mas, no fim das contas, bastante linear (cronologicamente falando).

Quer dizer, ao contrário da protagonista de Ruína y Leveza que estava sempre indo mais além, indo para o próximo lugar, o Murilo perambula pelos bairros, mas sempre volta ao seu apartamento. Não é o circuito ideal para uma narrativa em movimento, e isso me interessava: como criar uma road story para alguém que precisa dormir na sua casa todas as noites? Que é também perguntar: como viver uma road story morando na cidade onde nascemos?

A relação entre um humano e um ser de outra espécie é um dos eixos do livro. Que reflexões acompanharam o desenvolvimento desse aspecto da narrativa?

O primeiro ponto foi que eu queria criar uma personagem tartaruga que fosse, de fato, uma tartaruga. É comum que as obras literárias humanizem os animais, e eu achava que era importante que essa tartaruga não tivesse nenhum traço humano. Ela é um bicho e se comporta como tal. Me interessavam muitas coisas nessa relação, desde o improvável de alguém andar por aí carregando uma tartaruga por todas as linhas de ônibus de Porto Alegre, até a curiosidade humilde que existe em observar com atenção o modo de existir de um animal. Na verdade, isso vale para observar qualquer outra forma de vida. É igualmente fascinante prestar atenção em como um cachorro cruza as patas, ou como plantas em vasos separados tendem a crescer se aproximando, ou como uma tartaruga ergue o pescoço num movimento levemente lateral. O fascínio e, portanto, o afeto que podemos chegar a nutrir pelos outros seres dependem muito mais do nosso olhar do que daquilo que olhamos.

Desde o título, Ela Se Chama Rodolfo aborda questões de gênero, que vão ganhando densidade ao longo da narrativa. Como se deu a construção dessa abordagem?

Sendo eu uma mulher, e sendo eu uma feminista, as questões de gênero têm sido importantes para mim desde que eu entendi o que elas eram. E conforme a gente vai estudando, entende que elas deveriam ser importantes para todo mundo. Não há nesse planeta quem não seja prejudicado pelo patriarcado – mesmo o homem mais poderoso, mais rico e mais opressor é também prejudicado, pois vai ser um sujeito enrijecido, pobre de espírito, pobre de vínculos, limitado nas suas possibilidades de experimentar o mundo. Então eu tinha vontade de explorar esses aspectos menos evidentes das opressões patriarcais, e é por isso que Murilo é levado a confrontar suas ideias de masculino, de feminino, de performance social. Eu não tenho muita esperança de que a minha geração vá ver o patriarcado ruir, mas acho que já estamos vendo uma percepção cada vez mais disseminada de que os gêneros são apenas construções sociais, e que podemos descartá-las da mesma forma que algum dia aderimos a elas.

Por fim, o livro é costurado por correspondências e histórias que são contadas nessas trocas de mensagem – incluindo exercícios ficcionais de Murilo em torno da presença de urubus na cidade. Como tu enxergas esse elemento da narrativa?

O livro é também uma homenagem ao ato de contar histórias. Quando Murilo se corresponde com Francesca, ela se expressa contando histórias sobre outras pessoas, mas esse é o jeito que ela tem de se mostrar, de falar de si com mais segurança e liberdade, e acho que todo mundo já sentiu algo assim: a impressão de que a história contida num livro ou num filme ou até numa canção fala melhor da gente do que nós mesmos poderíamos. E enquanto a Francesca recorre a causos latino-americanos, Murilo recorre à ficção, inventa esses urubus que, assim como ele, ficam rondando sempre ao redor do mesmo ponto. Então eu queria explorar esse jogo de ocultamento e exposição que existe em toda contação de história.

Lançamento e sessão de autógrafos de “Ela Se Chama Rodolfo”, de Julia Dantas

Onde: Livraria Taverna (Rua dos Andradas, 736 – Centro Histórico – Porto Alegre)
Horário: 19h

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