Porto Alegre: uma biografia musical

A Era do Rádio 6 – Capítulo XLII

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A Era do Rádio 6 – Capítulo XLII Portrait de Ovídio nos 30 (Foto: Studio Azevedo e Dutra)

Outra figura importante dessa geração foi Ovídio Chaves, já lembrado aqui como um dos incontáveis discípulos de Octavio Dutra.

Nascido dia 29 de julho de 1910 na então minúscula Lagoa Vermelha (320 km ao norte de Porto Alegre), Ovídio trabalhava como músico desde os 15 anos, começando como violinista da orquestra que tocava no cinema de sua cidade ainda antes do advento do filme sonoro.

Aos 22 anos de idade decidiu que a cidade tinha chegado ao seu limite: muda-se para a capital, para estudar no Conservatório de Música de Porto Alegre. Logo estaria também fazendo aulas com Dutra e trabalhando como jornalista, assim como seu irmão, o também futuro compositor Hamilton Chaves.

O jornalista Ovídio passou pelo Correio do Povo, o Diário de Notícias e a Rádio Farroupilha. 

Mario Quintana, amigo e colega de boemia e de trabalho – na Cia. Jornalística Caldas Jr – o fixou em prosa poética: 

Conheci Ovídio Chaves nos tempos em que a gente literalmente bebia poesia. Naqueles tempos os bares eram silenciosos. Havia um, à esquina da Ladeira, onde jogávamos xadrez, espécie de poesia de muita tática e matemática e que exigia silêncio – um silêncio interrompido “ou acompanhado” pelo dono do bar, que tocava cítara. Havia outro bar, numa outra esquina, à Rua da Ponte, onde um grupo de velhos jogava dominó na mesa de sempre e cujos parceiros, a olhos vistos, iam diminuindo de um em um… Ovídio, com o seu coração repartido e o seu violão de treze cordas, continuou seguindo a evolução da noite.

O lendário violão de mil cordas de Ovídio. O que ele está fazendo de cenário do Lupi é uma boa pergunta…

Seu lado músico e poeta, empunhando um raríssimo violão de 13 cordas, lançou em pouco tempo três livros de poesia – o primeiro, em 1933 –, e chegou a ser diretor artístico da Rádio Gaúcha. 

É quando, em 1939, finalmente tenta compor alguma coisa. 

E arrasa: aos 29 anos, sua primeira canção é justamente um dos maiores sucessos nacionais já saídos de Porto Alegre: Fiz a Cama na Varanda, parceria com a cantora maranhense (nascida em Viana, em 25 de setembro de 1913, mas criada em Porto Alegre) Dilú Mello.

(Para a família, Ovídio garantia que a música era só dele, e que dera a parceria em troca de Dilú gravar a canção, o que era uma prática bastante comum na época, mas vai saber…).

Dilú Mello

Formada em violino pelo mesmo Conservatório de Música de Porto Alegre em que Ovídio estudara, Dilú termina o curso aos 13 anos, e com medalha de ouro. Será ela quem, em 1943, registrará a canção pela primeira vez. Neste momento, depois de formar-se também em canto lírico e pesquisar o folclore gaúcho, Dilú morava no Rio de Janeiro, o que facilitou o assunto. A gravação é sucesso instantâneo. 

Fiz a Cama na Varanda foi regravada dezenas de vezes, por gente tão diferente quanto Nara Leão e Inezita Barroso (além de mais de uma versão rock-balada, e até uma tradução de sucesso para o francês). Ovídio nunca repetiu o sucesso da primeira iniciativa, mas teve cerca de duas dezenas de músicas gravadas, nos mais variados estilos: de Toada do Jangadeiro – de nítida inspiração caymmiana – até uma gauchesca Meia-Canha. Só Dilú levaria ao disco mais cinco delas, nos 12 anos seguintes. 

Ovídio e Dilu Melo (Foto: Reprodução)
Reunião de intelectuais – Sentados, esq p/ dir.: Carlos Drummond de Andrade, Ovídio Chaves, João Daudt Filho, Graciliano Ramos e Augusto Meyer. Em Pé: Samuel Lima Rocha, Álvaro Moreyra e Paulo Godoy (Foto: Reprodução, acervo família Chaves)

Nos anos de 1950, foi dono de três casas noturnas, todas centradas na música: o bar Ivanhoé, que funcionava no mítico Castelinho do Alto da Bronze; o Piano Drink – que ficava sobre palafitas dentro do Guaíba, e cuja ponte se levantava quando a casa enchia… ou quando se aproximava um chato; e, é claro, o Clube da Chave.

Inspirado em clubes europeus e no clube carioca de mesmo nome, foi inaugurado em 1953, e frequentado por gente tão díspar como Lupicínio Rodrigues, Mário Quintana e João Gilberto. Um lugar onde as gerações efetivamente se misturavam, desde os então quarentões amigos de Ovídio dos anos 1930 e 1940 até uma nova turma de músicos, artistas plásticos, jornalistas e gente de teatro – como Paulo José e Paulo César Pereio. Sem falar nas celebridades do “centro do País” em passagem pela cidade, como Sílvio Caldas, Lúcio Alves, Manuel Bandeira ou Cecília Meirelles.

Durou até 1959 (primeiro no bairro Rio Branco, na esquina das ruas Castro Alves e Mariante, depois no Menino Deus, na Getúlio Vargas, 1343).

Foi a primeira “boate” da cidade que não poderia ser confundida com um cabaré ou bordel. As pessoas, homens e mulheres, iam ali para beber (sua própria bebida, que ficava num armário do qual cada um tinha uma chave), conversar, ouvir música.

O jornalista gaúcho Fausto Wolff, na época um adolescente do interior chegando na Capital, lembraria bem do Clube numa crônica para o Jornal do Brasil em 2006:

Nos idos de 1954, 1955, em Porto Alegre, nem tudo estava perdido para mim. Havia o Clube da Chave do poeta, jornalista e músico Ovídio Chaves, que Ibrahin (Sued, cronista social carioca) batizou de Carlos Machado dos Pampas. Era a primeira boate da cidade. 

(…) 

Tinha muita admiração por Ovídio, como, aliás, a cidade inteira. Ele era o meu herói e me deixava ficar horas ancorado no bar, com um cuba-libre que tinha que durar a noite inteira. O Clube da Chave era galeria de arte e palco, o que dava espaço para atores, cantores, artistas plásticos e cenógrafos. Foi lá que conheci Mário Quintana, Carlos Scliar, Iberê Camargo. Cecília Meireles e Manuel Bandeira leram seus poemas na casa. De dia, Ovídio escrevia para o Correio do Povo e, à noite, era o dono da noite.

Ovídio sentado com o violão e seu drinque favorito, o conhaque, no Clube da Chave (Reprodução, acervo família Chaves)

Tirando o fato de que Carlos Machado havia nascido em Porto Alegre, sendo portanto realmente alguém “dos pampas” em sua origem, os comentários mostram a singularidade da figura de Ovídio Chaves.

Já com 51 anos, em 1961, mudou-se para o Rio. Detalhe: convidado pelo próprio presidente recém-eleito João Goulart, para ser redator na Rádio Nacional. E foi também por ordem de um presidente – agora o general golpista Castelo Branco – que perdeu o mesmo emprego (junto com muitos companheiros da rádio, como Mário Lago). Foi preso e torturado quase até a morte pelo que se qualificava como “crime de opinião”. O que o salvou foi a família ser amiga do também general Cordeiro de Farias.

Ficou algum tempo preso e caiu na clandestinidade. Mesmo assim, anônimo, escrevia para a Revista Manchete. Quando conseguiu reaparecer, foi chamado para a Biblioteca Nacional, para trabalhar com outro amigo, Augusto Meyer.

Mudou-se para a Ilha de Paquetá, onde teoricamente estaria escondido, mas recebendo nos finais de semana uma turminha boa para intermináveis saraus: Edu da Gaita, Aracy de Almeida, Braguinha, Mário Lago, Altamiro Carrilho e seus vizinhos de ilha Orestes Barbosa e Sílvio Caldas. Isso, sem contar jornalistas, escritores, gente de teatro – o mesmo recorte do Clube da Chave, só que, como lembraram Pedro Haase e seu sobrinho Ricardo Chaves numa série de matérias para a revista Parêntese em 2020, sem ninguém pagar nada.

O cardápio do encontro, além da bebida, consistia na sua especialidade culinária, arroz de carreteiro. Tudo bancado pelo dono da casa, ou melhor, por dona Ika, a verdadeira mantenedora do lar.

Daí, pra conseguir algum dinheiro já sessentão, virou hippie, fazendo e vendendo artesanato de couro na feirinha em Ipanema ao lado da filha adolescente Maria Lívia e a esposa – pintora – Ika.

Morreu dia três de agosto de 1978.

Dois anos antes, seu sexto de livro, ABC de Paquetá, lhe deu – por unanimidade do júri – o prêmio de poesia Olavo Bilac, da Academia Brasileira de Letras, e menções elogiosas de ninguém menos que Manuel Bandeira, Carlos Drummond de Andrade e Augusto Meyer. Foi receber o prêmio quase escondido, com medo de ser preso.

Ovídio e seu artesanato exposto na Feira Hippie de Ipanema (Reprodução: acervo família Chaves)


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutorando em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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