Quadrinhos em revista

Ana Luiza Koehler e os becos da memória porto-alegrense

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Ana Luiza Koehler e os becos da memória porto-alegrense

Porto Alegre, anos 1920. O espírito modernizante chega à cidade e passa a se manifestar em grandes obras viárias que modificam especialmente o Centro da capital gaúcha: abrem-se ruas, derrubam-se casas, surgem novas edificações. Sob os escombros dessa reconstrução está boa parte da memória de uma cidade – não só a memória arquitetônica e dos antigos traçados urbanos, mas também as histórias de indivíduos e de comunidades afetadas por essa força modernizante. Esse cruzamento de narrativas é a proposta central de Beco do Rosário, história em quadrinhos desenhada e roteirizada por Ana Luiza Koehler e lançada recentemente pela editora Veneta.

Capa da HQ Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler.

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Porto Alegre, anos 1920. O espírito modernizante chega à cidade e passa a se manifestar em grandes obras viárias que modificam especialmente o Centro da capital gaúcha: abrem-se ruas, derrubam-se casas, surgem novas edificações. Sob os escombros dessa reconstrução está boa parte da memória de uma cidade – não só a memória arquitetônica e dos antigos traçados urbanos, mas também as histórias de indivíduos e de comunidades afetadas por essa força modernizante. Esse cruzamento de narrativas é a proposta central de Beco do Rosário, história em quadrinhos desenhada e roteirizada por Ana Luiza Koehler e lançada recentemente pela editora Veneta.

Capa da HQ Beco do Rosário, de Ana Luiza Koehler.

Ana é porto-alegrense e trabalha com ilustração desde os 16 anos. No campo dos quadrinhos, fez parcerias principalmente com autores europeus. Beco do Rosário é um projeto antigo, que surge primeiramente como um estudo urbanístico sobre a cidade e que se tornou a dissertação de mestrado da autora, defendida na UFRGS, em 2015; a partir daí, é publicada uma primeira versão (bem menos pretensiosa) do que viria a ser a graphic novel de 2020 – que seria viabilizada com apoio do programa Rumos, do Itaú Cultural. 

Em entrevista para a coluna “Quadrinhos em revista”, Ana Luiza expôs suas motivações em torno do tema que levou ao livro recentemente lançado: “Eu sempre fui muito fascinada pelas imagens da Porto Alegre do início do século passado, com que tive muito contato já na faculdade. Era uma cidade diferente e familiar ao mesmo tempo, e que me fazia sentir as camadas da sua história toda vez que eu andava pelo Centro ou reconhecia lugares nas fotografias. Ao lado disso, eu também sempre tive uma grande fascinação por história – e história dos anos 1920, pela sua estética, pela modernização urbana, pela revolução tecnológica que se operava naquele momento, e me perguntei como teria sido essa década na história de Porto Alegre. A partir daí, foi imaginar que pessoas viveram esse momento (e como viveram) para contar a história da cidade”.

Beco do Rosário focaliza quatro personagens que exemplificam o caráter diverso dessa Porto Alegre do início do século passado: o casal Vitória e Fabrício, uma mulher e um homem negros que vivem um romance inconstante, e os irmãos Frederica e Teo, uma mulher e um homem brancos. A busca por representatividade que acompanha a obra traz a denúncia acerca das contradições da própria sociedade brasileira, como as restrições femininas diante de uma sociedade patriarcal, além das desiguais relações de trabalho que se interpõem nesse microcosmo com diferentes figurações étnico-raciais.

Vitória tem uma personalidade forte; empoderada, claramente reconhece que não tem as mesmas oportunidades que os homens brancos, o que aprofunda sua insistência em garantir um lugar que lhe seja digno, que reconheça seus talentos de escritora e jornalista em potencial. A escolha pelo protagonismo de Vitória e suas aspirações profissionais permite, igualmente, que a autora apresente outros dados sobre aquela capital dos anos 1920 – mais particularmente, referências sobre a história da imprensa local. “A presença negra aqui é tão importante quanto em qualquer outro lugar do país. Temos uma grande e forte tradição da religiosidade afro-brasileira que se expressa no espaço urbano de Porto Alegre, e um dos principais jornais da imprensa negra brasileira, O Exemplo, figura na HQ também”, comenta Ana.

Na mesma perspectiva, há o personagem Fabrício, artesão negro de aparente talento, mas que não tem o prestígio de seu chefe, sendo relegado a segundo plano diante de outros escultores – alguns, estrangeiros (personagens reais, inclusive, como o espanhol Jesús María Corona). A marginalização sofrida dentro do próprio ofício e as adversidades do processo de modernização da capital levam Fabrício a cumprir uma jornada muito particular dentro da história, indo parar nas equipes de demolição das obras do Centro. Assim, um homem que aprendeu a construir e esculpir figuras delicadas passa a destruir a marretadas o lugar onde se criara.

Em outro âmbito, há a elite branca da cidade, representada principalmente pelos irmãos Teo e Frederica Waldoff. O primeiro, enviado pela família para estudar na Alemanha, acaba lutando no front da 1ª Guerra Mundial; ao retornar, formado em Engenharia, passa a trabalhar nas reformas promovidas pelo prefeito Otávio Rocha. Frederica, por outro lado, tem o seu talento ligado à música podado pelas vicissitudes do casamento; torna-se uma mulher sonhadora, um tanto ingênua, facilmente iludida pelos homens.

“A diversidade de histórias foi fruto de uma vontade de montar um ‘retrato de época’, um pouco como o romance Caminhos Cruzados, de Érico Veríssimo. Ou seja, explorar diferentes meios sociais da época em Porto Alegre e como eles se entrecruzavam”, afirma a autora. A proposta de uma narrativa múltipla, na qual, ainda, tais personagens compartilham diversas situações do enredo, eventualmente impôs limites para o projeto previamente estruturado: “Naturalmente, em função da limitação de tempo de execução e de páginas, eu tive que fazer alguns ajustes e reduções, então muitas ideias ficaram de fora ou poderão servir de material para um próximo episódio”.

A exposição de diferentes perfis dessa sociedade também oferece um aspecto inerente ao processo de modernização testemunhado na HQ: a marginalização de certos grupos no que diz respeito ao espaço urbano – fruto do descaso com a população, da especulação imobiliária e de uma mentalidade “higienizante”, que definia quem teria ou não direito à cidade naquele primeiro quarto de século. Essa lógica, tão similar a outros processos do tipo, ecoa de forma ensurdecedora nos dias de hoje. Dessa maneira, Beco do Rosário proporciona uma reflexão interessante: a de que narrativas históricas também são histórias sobre o contemporâneo. Por meio da reconstituição artística de outros tempos, descortina-se a intenção de debater o passado para se analisar o presente, como se usássemos uma lente que tem a capacidade de nos mostrar as ruas, as pessoas, as ideologias, enfim, todo um mundo de outrora. Assim, “viajamos no tempo”, tendo o contemporâneo como parceiro de leitura.

Essa noção também ganha um apelo particularmente importante quando colocamos em questão a narrativa visual. No caso de Beco do Rosário, há farta pesquisa iconográfica para a sua composição. O traço de Ana Luiza Koehler é exuberante e cheio de movimento, acompanhado de cores aquareladas marcantes e, em alguns momentos, vibrantes, que vão dando o tom do enredo. Diferentemente de outros trabalhos da autora, carregados de maior realismo na representação da figura humana, aqui chama a atenção um apelo um tanto cartunesco que traz certa leveza à obra, o que a faz dialogar, de certo modo, com as narrativas de costumes dos antigos folhetins. Entretanto, a intenção da autora visa espelhar outras questões: “Para contar esta história eu tive de encontrar uma nova expressão gráfica, e o fiz através do uso do nanquim e do bico de pena, muito inspirada nas próprias ilustrações de imprensa dos jornais da época. Com a pena, busquei um estilo de desenho mais livre e mais caricato do que aquele que eu havia desenvolvido, e o resultado me pareceu muito adequado para o roteiro”.

Ainda sobre os desenhos, convém ressaltar que os detalhes arquitetônicos ganham relevo na obra.  Nesse sentido, a obra de Ana Luiza adquire uma importância até mesmo didática, especialmente pela pesquisa que empreende: “Coleciono um grande corpus de imagens da cidade, tanto em fotografias como em ilustrações, e o que de certa maneira dificultou a minha pesquisa para a produção da HQ foi a relativa escassez de imagens dos becos de Porto Alegre. Fui encontrando aos poucos e, com elas, tentando montar a forma urbana e arquitetônica dessas vias. Um fato curioso é que percebi que, na década de 1920 em si, as imagens que encontrei dos becos geralmente já os mostrava em processo de demolição. Afinal, eram espaços que as autoridades não queriam mais na cidade moderna, então essas obras eram muito festejadas na imprensa”. 

Um beco é uma pequena via, curta e estreita. No entanto, a sua significação vai para muito além dessa síntese: um beco traz como característica própria não só sua topografia, mas também uma experiência de contato social em que a proximidade dos espaços físicos reforça os laços identitários das pessoas com o meio em que vivem; nessa ótica, o individualismo burguês dá lugar à estética do outro, à presença física do outro. O convívio torna-se um imperativo do dia a dia. Sendo assim, o beco é, sobretudo, uma forma de organização social em que o prosaico e o pitoresco florescem. Os becos de antigamente denotam também uma saudade idealizada de um passado que nenhum de nós viveu e que conhecemos apenas de forma indireta. Enxergamos nesses lugares uma expressão genuína de comunidades populares que se perderam no tempo, e há qualquer coisa de romântico ao imaginarmos os hábitos simples da gente daquela época, como se fossem detentores de uma espécie de pureza seminal, ainda não tocada pela mão da modernidade das grandes cidades. No entanto, se nos despirmos do idealismo, perceberemos que os becos e suas características eram, sobretudo, expressão da desigualdade social. Os centros urbanos coloniais podiam agregar tanto a alta elite e o comércio quanto parcelas menos privilegiadas da população. No caso de Porto Alegre, os arrabaldes estavam em pleno desenvolvimento no início do século XX, mas ainda não chegavam a monopolizar geograficamente a desigualdade. Era possível, dessa forma, cruzar uma rua no centro da cidade e se deparar com ambientes de pobreza, repletos de cortiços e prostíbulos, por exemplo.

Imagens da HQ: personagens discutem o destino do Beco do Rosário; à direita, em outra página, engenheiros trabalham no “Plano Geral dos Melhoramentos” da cidade.

A história do desenvolvimento urbano de Porto Alegre é, assim como outras cidades brasileiras, intimamente relacionada aos seus becos. O primeiro traçado urbano da cidade foi elaborado pelo capitão-engenheiro Alexandre José Montanha, em 1773, 21 anos após a chegada dos casais açorianos. Paralelas ao primeiro traçado da rua da Praia, já estavam indicadas na planta a Rua do Cotovelo (atual Riachuelo), a rua Formosa (atual Duque de Caxias), além das transversais beco dos Guaranis (atual Vasco Alves), beco do Bota Bica e rua do Arroio (atual General Bento Martins). Como se pode perceber, a denominação “beco” já era comum desde os primórdios de Porto Alegre. Conforme a cidade foi se desenvolvendo, outros becos começaram a surgir: beco da Marcela ou beco do Chico Pinto (atual Cristóvão Colombo), beco do Trem (não mais existente, próximo ao atual Gasômetro), beco do Oitavo (atual André da Rocha), beco do Juca do Olaria (atual Sarmento Leite), beco do Fanha (atual Caldas Júnior), beco do Cemitério ou beco do Império (atual Espírito Santo), beco do Leite (não mais existente), beco da Garapa (atual General Câmara), beco do Pedro Mandinga (atual General Canabarro), beco do Couto (atual Senhor dos Passos), beco da Casa da Ópera (atual Uruguai), beco do Poço (atual Borges de Medeiros), além, é claro, do beco do Rosário. Segundo Antônio Álvares Pereira Coruja, o primeiro cronista das ruas de nossa cidade, esta pequena via dava acesso aos terrenos de Antônio Pereira Couto, que era um grande proprietário de terrenos na região central pelos idos da primeira metade do século XIX. O nome faz referência, claro, ao antigo templo da Igreja do Rosário, cuja pedra fundamental foi lançada em 1827 em terreno doado por Antônio Pereira Couto. Em 1876, a via passou a se chamar Rua 24 de Maio, em homenagem à data da batalha de Tuiuti, durante a Guerra do Paraguai. No entanto, o local continuou a ser conhecido pelo seu antigo nome. 

O antigo beco do Rosário era uma rua estreita e se contrapunha completamente à largura da ideologia positivista modernizadora dos anos 1920. Era necessário que as grandes cidades brasileiras espelhassem as modernas capitais europeias, demonstrando, por meio de todos os meios possíveis, a nova forma de vida da burguesia cosmopolita. A República tinha interesse em enfrentar os problemas urbanos, e o faria por meio da ideologia do progresso. Era necessário dissipar a herança colonial em todas as esferas possíveis. Os becos, que representavam essa época, deveriam ser exterminados da paisagem da cidade, de forma a fazer com que o progresso inundasse todas as vias centrais de Porto Alegre, realocando os pobres e os ambientes “suspeitos” para regiões periféricas. A ideia de uma superioridade burguesa trazia no seu bojo sobretudo uma visão eugênica e patológica das populações menos favorecidas que habitavam as vielas da cidade.     Dessa forma, o processo de modernização passava automaticamente por um branqueamento dos centros urbanos e de um inchamento dos arrabaldes da cidade. Com a abertura do Cais do Porto, em 1921, também havia a necessidade de que existissem ruas mais largas para o escoamento de produtos. Portanto, era necessário melhorar os acessos a bairros como São João e Floresta. Sendo assim, o intendente Otávio Rocha resgatou um plano de melhoramentos da cidade, elaborado em 1914 pelo arquiteto João Moreira Maciel. A imprensa da época, principalmente por meio do jornal republicano A Federação, foi uma grande incentivadora dessas mudanças. Em pouco tempo, e após indenizações irrisórias por meio da Intendência Municipal, a população dos becos se viu obrigada a deixar as suas casas – e suas memórias – para trás.

Otávio Rocha morreu ainda durante o seu mandato, em 1928, e não conseguiu ver as suas obras concluídas. Alberto Bins, seu vice e sucessor, tratou de homenageá-lo assim que o alargamento do antigo beco do Rosário ficou pronto, em 1932. A rua agora estava de acordo com os novos tempos e levaria o nome de um dos maiores modernizadores dessa época: rua Otávio Rocha. Ele também foi o responsável, além de muitas obras urbanísticas, por abrir as avenidas Borges de Medeiros e Mauá. O intendente ainda teria o seu nome atrelado ao viaduto que representa a maior obra de modernização do centro da capital.

Não por acaso, o jornal A Federação surge na obra de Ana Luiza Koehler como o espaço do antagonismo em relação à personagem Vitória e a comunidade que ela representa. O protagonismo exercido pela personagem a levará a um saldo relativamente positivo ao final – o que torna seu nome simbólico dentro da história. Podemos ler essa escolha narrativa por um certo otimismo como algo que aproxima o enredo da HQ de tons melodramáticos, porém, é interessante que isso também seja compreendido a partir de uma outra lógica – que Ana Luiza explica: “Se por um lado eu não poderia construir uma narrativa cor-de-rosa, evitando falar de problemas urbanos que, afinal, eram centrais naquele momento da cidade (e também das pessoas diretamente afetadas por eles), por outro lado eu também não poderia deixar de mostrar o lado resistente desses atores e protagonistas. Ou seja, em meio à dificuldade surgem também alianças inesperadas, e especialmente entre mulheres, a fim de sobreviver num mundo em que suas possibilidades eram muito mais restritas do que hoje.

    Beco do Rosário, o livro, merece destaque especialmente por promover a memória de Porto Alegre ao espaço de relativo prestígio das graphic novels. Ver o cotidiano da cidade em outros tempos ganhar vida página após página, junto a uma pesquisa séria e importante de ser compartilhada, é algo encantador por si só. Enquanto, na prática, assistimos essa memória ser apagada e ficamos sabendo de narrativas a um só tempo interessantes e esquecidas, cabe, sim, reconhecer a importância de uma obra como a de Ana Luiza Koehler no contexto geral das histórias em quadrinhos publicadas no Brasil nos últimos anos. Sobre tal contribuição, a autora frisa: “Eu quero instigar essa leitura do espaço urbano como algo que se transforma ao longo do tempo, e também no qual se pode reconhecer camadas de diferentes temporalidades como um patrimônio coletivo. Quando se enche os espaços – presentes, passados ou futuros – da cidade com histórias, personagens, paisagens é que se cria um imaginário que poderá ser valorizado coletivamente. Isso é fundamental não apenas para o senso de cidadania no nosso país, mas visivelmente para a nossa autoestima como população brasileira”.

Sequência de páginas revela o melancólico processo de mudança dos antigos moradores do Beco do Rosário, obrigados a se afastarem do Centro.

*Vinicius Rodrigues com a colaboração de Cristiano Fretta


Vinícius Rodrigues é professor de Literatura, mestre e doutor em Letras pela UFRGS, sempre estudando quadrinhos e humor gráfico. Sua tese de doutorado venceu, em 2020, o Troféu HQMIX, o prêmio mais importante do segmento dos quadrinhos no Brasil. É autor de diversos artigos e contribuições em livros, em revistas acadêmicas e na imprensa. [email protected].

ERRATA:
Atenção para uma necessária correção no último texto da Quadrinhos em revista (O Fraga, Parêntese nº 51): ao comentar sobre o livro O Ano Pelo Avesso, de 1976, mencionou-se equivocadamente o nome de um dos autores; a obra foi comandada pelos cartunistas Sampaulo, Santiago e Ronaldo Westermann, chargista da Folha da Tarde, da Folha da Manhã e ilustrador do Coojornal – e não Ronaldo Cunha Dias (médico e também cartunista gaúcho), como foi veiculado. O lamentável equívoco foi apontado por dois leitores ilustres: Edgar Vasques e José Guaraci Fraga (“personagens” do texto em questão). Aos dois, à família de Ronaldo Westermann e, especialmente, em nome de sua memória, pedimos imensas desculpas (o erro será corrigido na versão do texto que ficará disponível no site). 

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