Reportagem

Chernobyl 35 anos: relembre a história do maior desastre nuclear até hoje

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Chernobyl 35 anos: relembre a história do maior desastre nuclear até hoje Ilustração de Nik Neves

Maior desastre nuclear já registrado na história, o acidente de Chernobyl aconteceu entre os dias 25 e 26 de abril de 1986. A explosão no reator 4 da usina de Chernobyl, localizado perto de Pripyat, na Ucrânia, aconteceu durante um teste de segurança no início da madrugada, resultando numa explosão e consequente incêndio que só foi contido no dia 4 de maio. As plumas radioativas lançadas pelo acidente na atmosfera precipitaram-se, então, sobre partes da União Soviética e da Europa Ocidental.

Imagens raras do reator 4, em Chernobyl, feitas pela KGB após a explosão

A catástrofe ocorrida em Chernobyl foi o pior acidente nuclear da história em termos de custos e baixas. Por dias, a União Soviética tentou esconder a tragédia e diminuí-la, mas a gravidade da situação fez com que fosse inevitável que ela viesse à tona. Para Johnny Ferraz Dias, mestre e doutor em Física Nuclear Experimental e professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, nenhum acidente radioativo se compara ao de Chernobyl. “Dentre os acidentes nucleares, esse foi o mais abrangente e o mais ‘espetacular’. Eu trabalhava em um laboratório em São Paulo na época e nós conseguimos detectar a radiação no ar. Foi como se um aerossol tivesse se espalhado por todo o globo”, lembra.

A fim de evitar uma catástrofe ainda maior e de descontaminar o entorno da usina, 500 mil trabalhadores foram envolvidos no processo, que custou cerca de 18 bilhões de rublos soviéticos (o que hoje equivaleria a mais de R$ 1,2 bilhões). O número total de vítimas ainda é controverso. Duas mortes ocorreram na instalação durante o acidente – uma após a explosão e outra por dose letal de radiação. Dias depois, 134 militares foram hospitalizados com síndrome aguda da radiação, dos quais 28 morreram em poucos meses. Além disso, 14 mortes por câncer devido à radiação entre os sobreviventes ocorreram nos 10 anos seguintes. Houve também, entre a população, 15 mortes infantis por câncer de tireoide. 

Para o professor, os números não refletem a realidade. “A União Soviética era um país extremamente fechado, então demorou vários dias para que eles se manifestassem com relação ao acidente em si. Ninguém sabe ao certo o número de vítimas do acidente”, lamenta. O acidente foi classificado, juntamente com o acidente nuclear de Fukushima I, ocorrido em 2011 no Japão, como um evento de nível 7, a classificação máxima na Escala Internacional de Acidentes Nucleares.

Em maio de 2019, o acontecimento recebeu uma espécie de segunda vida, provocada pela minissérie Chernobyl, produzida pela HBO. Inspirado em fatos precisos da vida real, o programa fez com que o assunto voltasse a ter destaque. Em entrevista à revista Veja, Craig Mazin, criador da série, conta que a fidelidade à realidade foi uma peça-chave para o roteiro: “A regra era nunca exagerar para aumentar o drama. A verdade era dramática e horripilante o suficiente”.

Ambiente marcado pela catástrofe

Os restos do reator foram enterrados sob uma cobertura chamada Estrutura de Abrigo, como um sarcófago, a fim de reduzir a dispersão de materiais radioativos dos destroços. Em 2017, foi colocado um novo, maior e mais tecnológico revestimento sobre o prédio e o reator.

Vídeo de 2009 mostra o interior do sarcófago em Chernobyl. Pontos brancos na imagem mostram a influência da radiação sobre a câmera

Estudos indicam que a área contaminada pelo acidente só estará segura novamente em aproximadamente 3 mil anos. A conta no Twitter Chernobyl Status mostra o progresso de limpeza do local. A última atualização mostra que a área não está nem 2% segura no momento. 

Atualmente, pesquisadores de diversas universidades no mundo desenvolvem estudos que podem ajudar na limpeza do local. É o caso de Tom Scott, professor da Universidade de Bristol e co-diretor do Centro Nacional de Robótica Nuclear (NCNR), no Reino Unido. Ele e sua equipe realizam pesquisas para substituir trabalhadores humanos em áreas de perigo nuclear, utilizando robôs para testar os níveis de radiação e coletar amostras. Scott já chegou a conduzir testes de campo em Chernobyl. Já a Dra. Claire Corkhill, da Universidade de Sheffield, também no Reino Unido, simula materiais contendo combustíveis semelhantes a lava (LFCMs, uma mistura de combustível nuclear, concreto, partes do reator, produtos de fissão e outros materiais, conhecida também como Pé de Elefante) para entender como melhorar os esforços de descomissionamento (desativação) de locais de desastres nucleares. A reportagem tentou contato com ambos pesquisadores, mas não obteve retorno até a publicação.

Embora ainda não esteja em condições seguras, a área recebe muitos visitantes quando o nível de emissão radioativa está baixo. No livro Transiberiana: uma viagem de trem pelo mundo soviético (e por outros países que não me deixaram entrar), o escritor de viagem Zizo Asnis traz relato sobre a visita que fez ao local em 2015. Para ele, a experiência de visitar a cidade de Pripyat foi única e inesquecível. “Foi um local muito diferente de todos que eu vi, justamente pela história, pela tragédia, pelas cicatrizes que carrega. Vale muito a pena ser conhecido por quem tiver a oportunidade”, afirma.

Asnis conta que a visitação é controlada e segue muitos protocolos de segurança, como o tempo de permanência e recomendações para que o grupo permaneça sempre junto ao guia e não toque em nada. Os grupos, com número restrito de visitantes, passam por scanners de radiação (“bem cara de Guerra Fria”, como ele mesmo define) antes e depois do tour, evitando riscos de contaminação. A visita está longe de ser um turismo massificado, como ressalta. “O que é muito bom, até em respeito ao local, que não é uma Disneylândia. Espero que, apesar do boom e da procura que Chernobyl teve nos últimos anos, se mantenha esse controle na visita e esse respeito.”

“Turismo é uma palavra um pouco ingrata para o tour, mas esses lugares merecem ser visitados para que as pessoas tenham consciência sobre as tragédias provocadas pelo homem, para que nunca mais se repitam”, reflete.

O fotógrafo Andrej Krementschouk tem dois livros publicados sobre a tragédia e visitava o local regularmente para fotografar as famílias que ainda moram na zona de exclusão — eram cerca de 120 pessoas na época, em sua maioria idosos. Trata-se de um território onde é impossível viver, mas diversos dos últimos residentes não querem sair, porque é importante e necessário para eles viverem na terra em que nasceram, perto dos túmulos de seus entes queridos. “Esse carinho e amor pela terra natal, apesar do infortúnio que aconteceu, me ensinou muito”, reflete.

Ele chama a atenção para um aspecto inusitado: “Andei por vilarejos abandonados em que viviam uma ou duas pessoas, mas na maioria das vezes ninguém vivia, e tudo com que entrei em contato me lembrava contos de fadas que gostava de ler quando criança. Nessas histórias, havia um dragão maligno de três cabeças, mas havia pessoas valentes e especiais que, apesar de suas perdas, permaneceram fiéis a si mesmas.”

Todas as visitas do profissional ao local atingido pela radiação foram realizadas com a câmera em uma mão e o dosímetro radiológico em outra. Para Krementschouk, os maiores perigos hoje são, na verdade, edifícios que correm o risco de desabar sob a influência da umidade e do gelo. 

“A zona de exclusão demonstra como a natureza é boa sem nós e como pouco importamos para ela”.

Andrej Krementschouk

O fotógrafo compara a exposição à radiação ao coronavírus: “É impossível saber como seu corpo reagirá a uma infecção sem ter ficado doente. Conheci pessoas que viviam a uma distância considerável do epicentro do desastre, em áreas onde o nível de radiação foi ligeiramente excedido e, apesar disso, sua saúde foi significativamente prejudicada. Por outro lado, também conheço uma pessoa que muitas vezes entrou no reator, esteve lá muito tempo, filmou um vídeo no epicentro da explosão e está vivo.”

Krementschouk relembra que poucas pessoas que sobreviveram ao acidente ainda estão vivas e que, sem elas, seus últimos habitantes, o local se transformará em uma Disneylândia do Leste Europeu. “A zona de exclusão demonstra como a natureza é boa sem nós e como pouco importamos para ela”.

Uma tragédia evitável

Com base nos estudos feitos após o desastre de Chernobyl e levando em conta a magnitude da tragédia, o mundo inteiro passou a tomar mais medidas preventivas em relação à energia nuclear. No Brasil, as usinas Angra 1 e Angra 2 adotam uma série de protocolos para evitar que a história se repita.

Para Alex Wellerstein, historiador especialista em armas nucleares do Stevens Institute of Technology, nos Estados Unidos, o caso em Pripyat foi um aviso severo de que escolhas erradas tanto em tecnologia nuclear quanto em seu gerenciamento poderiam ter consequências desastrosas: “Áreas significativas da Ucrânia, Bielorrússia e Rússia foram contaminadas pelo acidente, com efeitos de longo prazo na saúde, provavelmente afetando a vida de dezenas de milhares de pessoas em toda a Europa. Chernobyl é o exemplo definitivo de uma tragédia produzida pelo homem e, portanto, totalmente evitável”, observa.

* Reportagem produzida para a disciplina de Ciberjornalismo III da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, ministrada por Marcelo Träsel. A versão original e completa pode ser conferida aqui.


As ilustrações desta reportagem foram criadas pelo ilustrador Nik Neves após viagem à Ucrânia em 2011 com o repórter Ricardo Romanoff, que apresenta um ensaio fotográfico nesta edição.


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