Reportagem

Vem cá ver essa coisa incrível

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Vem cá ver essa coisa incrível Lorena Patrício

Guardada toda a densidade do momento, uma quarentena pode servir para muitas coisas: pesquisar algo novo, tirar uma vontade antiga da gaveta, olhar com calma pela janela, escrever. Eu decidi que combinaria todas essas, dando espaço a uma velha curiosidade: saber mais sobre a observação de pássaros.

De certo modo, sempre pensei nos observadores com o mesmo fascínio com que penso nas próprias aves. Afinal, também os observadores têm seus rituais e rotinas particulares e movem-se e interagem de formas que desconheço. Certamente, reparam em coisas que não tenho sido capaz de enxergar.

Claro, sempre imaginei que quando fosse me aventurar pelo tema eu o faria estando bem perto, tanto de pássaros quanto de observadores. Vai entender, foi preciso um tempo de movimentos restritos para tirar justamente essa, e não outra vontade da gaveta. Assim, não fui a campo, não vivi entre observadores, não experimentei um binóculo sequer, nem me envolvi em uma incrível expedição amazônica. Mas tive a alegria e a surpresa de conversar com Pedro Develey e Lorena Patrício, dois importantes observadores do país, e, apesar das telas e de algumas falhas de internet, ao ouvi-los me senti um pouco entre araras no Pantanal.

Pedro, que é ornitólogo, me contou como sua área vem passando por uma verdadeira revolução com o aumento do número de observadores. E quando perguntei a Lorena, que tem apenas 18 anos, o que mudou na sua vida com a observação de pássaros, também ela falava de uma revolução, pois respondeu, sem qualquer titubeio: tudo. Parece mesmo que olhar para as aves tem algo de caminho sem volta, e eu mesma, cá em minha quarentena, começo a entender que as conversas vieram em bom momento. Afinal, tenho reparado nas aves, de algumas já sei o nome, de outras conheço o canto, e isso trouxe uma curiosa leveza para esses dias, tão duros. 

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A seguir, trago um pouco das histórias de Pedro, de Lorena e da comunidade passarinheira. E fazemos, nós três, um convite aos leitores: juntar-se a essa espécie – ao que tudo indica, ela está em plena expansão.

PEDRO E O CANTO DA MATA

Ainda criança, Pedro vivia caminhando sozinho pelo sítio da família, em Bragança Paulista, tentando enxergar as espécies que ouvia. Era o início dos anos 1980, e não existia câmera digital, telefone celular, muito menos aplicativo. Um dia, vendo o interesse do sobrinho, seu tio perguntou: você gosta de passarinho, né? E presenteou o menino, que já tinha um binóculo, com o guia Aves brasileiras, de Dalgas Frisch. Foi quando os bichos bonitos passaram a ter nomes científicos.

Aos 10 anos, no sítio de Bragança Paulista (SP). 
Crédito: acervo pessoal.

Hoje, Pedro tem 51 anos, mora em São Paulo e é o diretor da SAVE Brasil, importante entidade para a conservação de aves no país. Ornitólogo, também ele catalogou aves em um guia de campo, Aves da Grande São Paulo, que vem ajudando gente a apurar o olhar mesmo no coração da metrópole. Quando conversamos, Pedro tinha acabado de voltar do sítio, onde segue observando pássaros – contou 75 espécies em três semanas. Durante a conversa, descobri que, mesmo com os avanços da tecnologia, o binóculo ainda é seu instrumento preferido, pois com ele “se aprende mais sobre os bichos”. Descobri, também, que o exemplar de Frisch segue bem perto de sua mesa de trabalho e tem uma que outra pena esquecida entre as páginas – dessas coisas cotidianas na vida de um ornitólogo.

Embora ele me conte que o encantamento começou com a beleza dos psitacídeos – que, para gente sem guia, são papagaios, araras, periquitos –, quando pergunto sobre a experiência que o marcou profundamente, foi essa aqui, aos 14 anos, de uma família bem diferente: “Eu sempre ouvia um canto que ficava na mata e nunca vinha até o jardim. Um dia, decidi descobrir. De repente, vi um passarinho bem pequeno, azul, impressionante. Chamei meu pai, ‘vem cá ver essa coisa incrível’. E então não era mais um, mas cinco. Na hora, lembrei de algo que tinha visto na televisão, sobre aves lá da Amazônia que faziam uma dança. Voltando para a casa, identifiquei no guia: eram tangarás dançarinos, parentes daquela espécie da tevê. O tangará macho faz uma dança para conquistar a fêmea. Uau. Meu pai talvez já não lembre, mas eu não esqueço, porque foi a primeira vez que senti essa emoção: ouvir, ir atrás, encontrar, me encantar. E compartilhar.”

Mesmo que o galo chegue atrasado

Impressionada com os números de observação – 40 mil observadores bem atuantes em um país com menos de 500 ornitólogos –, pergunto a Pedro: afinal, por que observar pássaros, e não outros animais? A resposta é na verdade bem simples: porque estão em toda parte. “Não tem nenhum outro grupo animal que esteja desde a Tundra até a Antártica, passando por todo o trópico no deserto. Alguns vão viver só em áreas de floresta, outros, em ambientes aquáticos, alguns em áreas muito preservadas, bem longe de gente, e outros em uma praça pública, dentro da cidade. Por isso, seja onde for, sempre vai ter ave para observar.”

E olhar para as aves com a devida atenção é, também, ser capaz de conhecer e interpretar o ambiente. Segundo Pedro, funcionam mesmo como impecável termômetro: “Basta adentrar 10 metros em uma mata que, dependendo dos cantos, já sabemos se tem água corrente, cachoeira, pedra, bambu, se estamos acima de 1000 metros ou no nível do mar. A partir das espécies que estão ali, também é possível saber se o lugar está preservado ou não. A gente vai observando e aprimorando. A cada nova ave que você aprende a identificar, facilita a próxima, e o mesmo acontece com o ambiente.”

“O que é preciso? estar ali.” Além da possibilidade de interpretar o ambiente, uma das coisas que mais encantam Pedro na observação é justamente essa simplicidade: estar ali, até que um bicho passe, “porque alguma hora um bicho vai passar.” Isso, aliás, serve de lembrete para observadores aflitos, pois a paciência, de acordo com ele, está na essência da atividade. “É um pouco como a gente deveria encarar a vida: entrar no ritmo da natureza, desacelerar. Quer ver o gavião pousar? Ótimo. Mas ele vai pousar no ritmo dele. A gente até pode preparar o terreno, atrair a ave, mas jamais determinar o ritmo.”

É claro, ninguém está livre de certa ansiedade quando o que está por vir é uma “aquarela bem diante dos olhos”. Ele mesmo, em viagem à Amazônia para avistar o majestoso galo-da-serra, precisou respirar fundo e confiar: “Chegamos de manhã cedo na mata, e nada do bicho. O guia, muito calmo, nos disse que pelas 13h eles começariam a aparecer. Eu, todo técnico e científico, falei que às 13h eles já estariam dormindo. ‘É só sentar aqui e esperar’, ele insistiu. Fazia horas que estávamos lá. De repente, aparece um primeiro. É um bicho grande, laranja, que brilha dentro da mata. Não demorou, tinha seis, sete em volta da gente. Eram 13 horas. Não é que ele estava certo?”

Em recente viagem de observação.
Crédito: acervo pessoal.

Não é que o leigo estava certo?

Na visão de Pedro, a troca de conhecimento entre leigos e ornitólogos, que vem acontecendo com o aumento de observadores no país, tem proporcionado uma verdadeira revolução na área. Embora ainda haja alguns acadêmicos teimosos que, segundo ele, reclamam que “esse pessoal erra demais”, as recompensas do convívio têm certamente sido mais benéficas que nocivas: não são poucos os artigos científicos publicados utilizando apenas dados de observadores.

“Se houver uma ave muito ameaçada e um pesquisador quiser entender a situação dela, por exemplo, no Nordeste do Brasil, a primeira coisa que vai fazer é olhar os registros dos observadores. Quem está vendo? Onde? Isso está lá, postado nas plataformas, e tem ajudado muito biólogos e conservacionistas nos trabalhos de mapeamento e na priorização de áreas para conservação.”

Claro, isso tudo só é possível por um conceito fundamental que atravessa esse grupo: o de ciência cidadã, prática colaborativa em que a comunidade contribui voluntariamente com informações, ajudando estudiosos e no cuidado para a preservação da natureza. Talvez movidos por esse senso de responsabilidade, profissionais ou não, os observadores têm feito jus ao próprio nome, e são hoje um grupo bastante minucioso e organizado em sua coleta de dados.

Anotações e desenhos de observação em
uma caderneta antiga de Pedro.

Com o contingente maior de observadores, também aves ameaçadas, desaparecidas, algumas consideradas extintas, que antigamente eram avistadas apenas por ornitólogos, têm agora mais chances de serem redescobertas e, idealmente, conservadas. E assim, adentrar a mata com um binóculo, que para Pedro e para muitos, é uma perfeita definição de solitude, pode se tornar, como que por acaso, uma atuação coletiva:

 “Às vezes, por uma sorte, uma dessas aves cruza o caminho de um observador e muda o rumo das coisas. Foi o que aconteceu recentemente, em 2015, com a rolinha do planalto, uma pomba de olho azul forte, marrom com manchas azuis. Estava há 75 anos desaparecida, prestes a ser considerada extinta, pois ninguém de uma geração inteira tinha visto esse bicho vivo. É um bicho do Cerrado, e foi encontrado no norte de Minas. Com essa descoberta, foi possível fazer um projeto de conservação. Quando o anúncio foi feito no Avistar, importante evento da área, todo mundo ficou em alvoroço, pensando: quem vai ser o próximo a ver?”

LORENA, PESSOA CURIOSA

A jovem Lorena Patrício em plena observação em Trancoso, na Bahia. Crédito: acervo pessoal.

Enquanto escuto Lorena Patrício, vou anotando mentalmente apenas algumas de suas contribuições para a área: no site Wikiaves, já registrou mais de 500 espécies. Aos domingos, publica nas redes sociais uma divulgação breve e didática de artigos científicos sobre pássaros, dentro do seu projeto Science Sunday.  Ao lado de outros dois pesquisadores, desenvolveu ao longo de um ano um estudo de campo para a conservação de aves em área de Cerrado, em Botucatu (SP). E, em 2017, lançou em coautoria um guia de aves para observadores iniciantes: “fizemos para a comunidade, para trabalhar com educação ambiental na escola. Gosto muito de desenvolver atividades com as crianças, pois elas começam a se interessar, a descobrir coisas que não sabiam, e passam a fazer pequenas observações.” O que não cansa de me surpreender é isso: Lorena tem apenas 18 anos e, segundo me conta, já passou mais tempo da sua vida observando aves do que não observando aves.

Não foi olhando para o céu nem ouvindo cantos, mas lendo a série A lenda dos guardiões, sobre corujas, que iniciou sua vida de observação e pesquisa, por volta dos 8 anos: “foi quando comecei a buscar mais informações sobre corujas e aves de rapina em geral”. Lorena, afinal, tem desde sempre aquilo que a seu ver é a essência desse universo: a curiosidade. “Acho que todos os observadores que conheço são pessoas curiosas. Para mim, observar aves tem a ver com pesquisar, ser um investigador do que está à nossa volta. Entender as relações entre os animais e o seu entorno. E o bom é que estamos sempre rodeados de coisas sobre as quais não sabemos tudo.”

Bando misto, sorriso no rosto

A vantagem é que, diferente de Pedro, que começou a observação quando quase ninguém fazia isso no país, Lorena pôde dar asas à sua curiosidade contando com todos os recursos da atual comunidade passarinheira: aplicativos, plataformas de compartilhamento, eventos e, principalmente, o senso de pertencimento e responsabilidade, fortalecido pela ideia de ciência cidadã. “Quando descobri, oito anos atrás, o que existia no site Wikiaves, fiquei encantada. Roubei a câmera da minha mãe e comecei a fotografar. Conforme eu postava as fotos, muitos me ensinavam como aprender a identificar as aves. A comunidade sempre ajuda quem está começando.”

Essa relação, conta, fez toda a diferença para seguir adiante: “Acho que um grande diferencial da área é a troca entre profissionais e observadores. Hoje, posso escrever para um ornitólogo renomado com alguma dúvida e sei que ele vai me responder, pois essa é uma abertura que foi criada na área, com a atuação dos observadores.”

Para a jovem observadora, o Avistar, evento onde todos os anos se encontram ornitólogos, observadores e amantes da natureza, é um dos melhores exemplos desse convívio. Lá, mesas com acadêmicos de importantes universidades do mundo acontecem na mesma sala onde o proprietário de uma pousada fala sobre as aves do seu quintal. Lorena se sentiu tão acolhida que passou a organizar, ela também, uma mesa, chamada Bando Misto, para jovens passarinheiros: “Quando comecei, estava muito sozinha entre adultos. Mas a observação está crescendo também entre os jovens. Tenho tentado mobilizar para que se conheçam, pois há jovens observadores espalhados em várias regiões do país.”

Foi com o mesmo intuito que Lorena idealizou, em parceria com a SAVE e com o Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, o evento internacional Young Birders Brasil, organizado pelo Grupo AlmaA. Em janeiro de 2020, a segunda edição aconteceu em Trancoso, na Bahia, e foi lá que ela viveu um dos momentos mais marcantes de sua já experiente alma observadora: ver a crejoá. “É uma ave absurdamente maravilhosa, uma cotinga com a barriga meio vermelha, quase vinho e tem um azul púrpura, roxo nas costas. Um bicho extremamente raro, ameaçado de extinção, que vimos muito de perto. Foi muito marcante, estar com outros jovens, todo mundo com sorriso no rosto. Uma ave de repente aparece e tem esse poder de deixar todo mundo alegre.”

“Todo mundo com sorriso no rosto” – jovens passarinheiros no Young Birders Brasil em janeiro deste ano, na Bahia. Crédito: Lorena Patrício.

Já não consigo não prestar atenção

Lorena conta que na sua vida existe, sem dúvida, um antes e um depois dos passarinhos. Um dos efeitos desse “depois” é que, ao sair de casa, já não consegue não lembrar dos nomes e características de cada espécie que vê ou ouve. E, mesmo sem qualquer pesquisa, não conseguiu ignorar que na sua região as aves migratórias de inverno chegaram um pouco mais cedo esse ano – provavelmente, consequência das mudanças climáticas. Porque, talvez, a transformação se dê também como um sensível ajuste no olhar, marcado por quem se acostumou a prestar atenção: “Depois de começar a observar, sinto que a atenção para certas coisas que não costumaríamos ver é maior. E não falo apenas das aves. Mesmo para descrever uma sala. É um treinamento do olho, da audição, da percepção. Da capacidade de reconhecer as coisas.” 

Com a clareza de quem seguirá adiante para se tornar, oficialmente, uma colega de Pedro e dos tantos ornitólogos com quem já convive, Lorena diz: “a observação faz tudo que sou”. A transformação que a atividade trouxe para sua vida talvez seja um ponto fora da curva, é verdade. Mas a existência de cada vez mais pessoas observando aves, atravessadas por essa irreversível revolução do olhar, não deve ser pouca coisa. Pedro, que tem a vantagem da perspectiva histórica, encara com entusiasmo – e, admite, talvez alguma dose de otimismo – o atual momento passarinheiro: “Se hoje temos 40 mil pessoas que não são biólogos observando aves, é preciso pensar que essas pessoas levam consigo, para outros ambientes da sociedade, uma bandeira muito importante. Se você gosta de aves, você precisa do ambiente preservado. E é assim que se muda uma cultura. Já imaginou se chegamos em 1 milhão de observadores? Um milhão de pessoas valorizando as aves e o meio ambiente? Talvez eu seja otimista demais, mas acho que a gente consegue mudar um país. Porque aí você tem voz e não dá pra colocar qualquer pessoa no Ministério do Meio Ambiente e ficar tudo bem. Acho que ainda não deu tempo de chegar nisso, porque ainda é recente. Mas já imaginou?”

Assim como Lorena, que já não consegue não prestar atenção ao sair de casa, a revolução imaginada por Pedro talvez fale de um voo parecido, porém coletivo. Algo que fala, a um tempo, do alcance do olhar e da força dos bandos. Quando as pessoas já não conseguem não se importar. Antes mesmo das conversas, eu já suspeitava que ganhamos muito ao observar pássaros. Agora já não tenho dúvidas: as aves também agradecem os observadores.

Jovens observadores no evento Young Birders Brasil 2019, em Paraty – RJ. Crédito: Lorena Patrício.

DICAS DOS PASSARINHEIROS

  • O aplicativo gratuito Merlin, do Laboratório de Ornitologia da Universidade de Cornell, ajuda a identificar as aves que vimos com perguntas do tipo “qual o tamanho?”, “onde estava?” e “quais as principais cores?”.
  • Na plataforma Wikiaves, além dos registros fotográficos, as conversas dos chats também ajudam a aprender muito.
  • Durante o período de quarentena, muitas atividades virtuais estão acontecendo no Youtube do Avistar Brasil para manter a comunidade passarinheira. No Janelives, é possível assistir ao vivo aves espetaculares do Brasil inteiro, com comentários que ajudam a aprender.
  • Em períodos normais, muitas cidades oferecem saídas de observação, com o empréstimo de binóculos. No RS, acompanhe as saídas e atividades do Clube de Observadores de Aves de Porto Alegre em www.coapoa.org e no site da associação dos clubes do estado em www.destino.blog.br/coasrs/.
  • E um convite do Pedro e da Lorena: torne-se um amigo da SAVE Brasil http://savebrasil.org.br/

[Para acompanhar esse voo em plena quarentena, o ensaio de fotos desta edição, da também passarinheira Ester Ramirez, oferece uma incrível fresta de observação, para olhar as aves de perto, com tempo e cuidado.]

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