Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #225: Dedo no dique

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Parêntese #225: Dedo no dique Foto: Gustavo Mansur/Palácio Piratini

Desde a infância eu carrego comigo uma história que me encheu de medo e até terror, mas tudo misturado com um sentimento de dever e heroísmo. É a história dos Patins de prata. Diz a Wikipedia – uma enciclopédia colaborativa, um dos lindos milagres coletivos de nosso tempo – que nasceu num romance de uma certa Mary Mapes Dodge, publicado em 1865 nos Estados Unidos. 

A trama envolve a disputa por uns patins de prata, esses do título, mas o que importa aqui é um trecho interno, que eu tenho a impressão de ser história bem mais velha, uma lenda popular, talvez holandesa. Ela fala de um certo Hans, um Joãozinho (vamos abrasileirar logo para ficar tudo em casa) que estava passeando com um irmão mais novo por perto do dique que protegia a cidade do mar. 

A Holanda tem mais fragilidade que Porto Alegre nesse quesito: grande parte do território fica mesmo abaixo do nível médio do mar, ao passo que a Mui Leal e Valerosa fica na cota 10m, diz a mesma Wikipedia. Uns 3 metros acima do nível médio do Guaíba.

O caso é que, a certa altura da história, os irmãos estão longe de tudo, perto apenas de uma plantação de cevada, quando o menorzinho viu umas pequenas bolhas saindo da parede do dique. Vou encurtar o enredo: o irmão maior percebeu que tudo podia ser inundado, porque as bolhazinhas viraram bolhas e deram lugar a um fio d’água… Joãozinho meteu o indicador no furo e pediu para o pequeno ir correndo até a cidade, avisar o pessoal, enquanto ele aguentava, ia dizer a mão, mas é melhor dizer o dedo. 

Passou a noite lá. Uma noite inteira. Sozinho e com o dedo espetado no furo.

Na manhã seguinte tudo se equacionou bem, não lembro bem de que jeito. E o Joãozinho virou herói.

Corta para Porto Alegre, para hoje. 

Não há dedo que resolva nossa enchente, que já ceifou mais de cem vidas e desalojou muitas dezenas de milhares de concidadãos. Mas há uma série grande de candidatos a Joãozinho. Pessoas reais que estão dando o que têm, à distância ou presencialmente, para ajudar uma entidade coletiva meio invisível que se pode chamar “o próximo”. Gente que merece um abraço forte e quente. 

(Tese para conversar no bar, assim que der: essa auspiciosa onda de solidariedade é um sintoma que as pessoas normais no fundo estão cansadas de só odiar.)

Gente muito próxima – como as editoras Libretos, Projeto, Ama Livros, Oikos, L&PM, talvez outras mais, que perderam algumas até a totalidade de seu acervo, pela invasão da água nos depósitos. Como a Livraria Taverna, que funciona na Mário Quintana. 

Gente como o grande escritor Sérgio Faraco (nosso entrevistado aqui na Parêntese, quando completou seus 80 anos), que postou no Facebook a seguinte lembrança crítica: “Em janeiro, a Melnick desperdiçou 50 mil quilos de carne na famigerada Paleta Atlântida, e agora vem fazer praça de sua generosidade doando 50 colchões para os milhares de flagelados da enchente”. 

Isso ao lado de gente como o governador Leite, que fez pose de valente ao tuitar contra o Governo Federal, que já estava e está operando no que tem que fazer – e tem que melhorar também, num país ultracentralizado como o nosso –, e fez pose de estadista ao tuitar um subserviente “Thank you” ao insensível nababo Elon Musk, por uma doação trivial para sua indecente fortuna. O mesmo Leite que queria licenciar aquela mina de carvão aqui pertinho. Carvão, como se estivéssemos em 1850 e fôssemos uns patetas, na terra de José Lutzemberger.  

(Leite falou num Plano Marshall para reconstruir o estado. Nosso parceiro Francisco exatamente Marshall aceitou o repto e propôs um. Aqui o vídeo.)

Nessas horas agudas, aliás, é que se vê quem é quem. Aqui na Matinal temos contado aspectos constrangedores de negligência e descaso, quando não de deliberada má-fé, por parte do mesmo Leite, que assassinou o Código Ambiental em nome de seu liberalismo e agora se vê a braços com uma tarefa que ele não tem capacidade de atender – justamente a tarefa de liderar um Estado essencial para os necessitados, que agora são legião, mas sempre são muitos. 

Do mesmo partido do governador é o deputado Lucas Redecker, que foi o parecerista que avalizou, como relator, um projeto de lei que autoriza o desmatamento de 48 milhões de hectares de “campos nativos” (na palavra de André Trigueiro). Do mesmo partido, aliás, é o ex-prefeito Marchezan, que sucateou o DMAE para privatizá-lo – essa conclusão é do Tribunal de Contas do Estado.

Outro que o trem da história precisa descartar é o prefeito Sebastião Melo. Entre as tantas falhas que temos mostrado aqui, dê uma olhada em sua atuação não agora, de jaleco e cara compungida, mas desde que assumiu a prefeitura – as facilidades para quem quer construir o que quiser, o desmonte do Plano Diretor, a falta de capacidade de representar o sentido coletivo. Quanto às cheias, que vão continuar vindo, ele não melhora nada,

O prezado leitor e a gentil leitora viram a nossa reportagem de ontem, sobre o inaceitável desprezo do prefeito para com a manutenção das bombas? Leiam lá e me digam.

A extrema-direita, enquanto isso, espalha fake-news obscenas e se mantém na velha tradição de ridicularizar os cuidados com o meio-ambiente, para nem falar do acobertamento dos assassinos de Chico Mendes, para dar um exemplo notável.

A imprensa profissional tem prestado um serviço à altura de sua tradicional importância nesse momento. Mas ela sucumbe a uma visão caso a caso, em busca de um novo Joãozinho, uma série de Joãozinhos, porque ali está a humanidade da experiência. 

Uma visada de conjunto está faltando: justamente a visada que bons governantes nos poderiam oferecer, uma visada que nos deixaria em condição de entender estruturalmente o que está acontecendo com os nossos vários diques, literais e simbólicos, em volta de Porto Alegre. Dedos não faltam.

* * *

Por motivos óbvios, este sábado mais uma vez não contaremos com a nossa edição completa. Todos os esforços da equipe da Matinal estão voltados para cobrir o que vem acontecendo há mais de uma semana e que está tão difícil de processar. Entretanto, jamais perderemos o papel que nos cabe de trazer conteúdos relevantes no campo da cultura, comportamento, ciências, enfim, que provoquem o pensamento justamente sobre tudo isso que está acontecendo. Por isso, ao longo da semana, publicaremos colaborações da Parêntese dentro da Matinal News. Se tudo der certo, a Parêntese retoma suas edições a partir do próximo sábado, 18. Por hoje, fica o ótimo resumo de Juremir Machado da Silva, sobre cenas recentes que jamais esqueceremos!

Luís Augusto Fischer 

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