Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #224: Auster

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Parêntese #224: Auster Foto: Wikimedia Commons

Não sei se haverá escritor ocidental mais forte, de presença mais nítida no mercado e no horizonte de leituras dos bons leitores, nas últimas duas ou três décadas, do que o recém falecido Paul Auster. Aos 77 anos, sucumbiu aos desdobramentos de um câncer de pulmão. 

Entre os mais de 30 títulos que produziu, cada leitor terá seus prediletos, guardará aquele tesouro que cada um carrega da experiência vivida na hora da leitura. Momentos em que algo acontece no nosso coração, na nossa alma, em qualquer lugar, esquina, poltrona, banco de ônibus em que se esteja lendo. 

Comigo carrego dois títulos absolutos, que já reli, com grande gosto também na segunda vez. A invenção da solidão (1982), com seu misto de memória, ensaio, estudo, tudo tramado num texto sempre fluente, é o primeiro. (Devo ter comentado isso com muitas pessoas: na minha lembrança, esse título oscila entre Invenção da solidão, o verdadeiro, Invenção da infância e Invenção da memória. Sim, muito significativo, eu sei.)

O outro é um romance a cuja leitura eu tive alguns momentos de intensa perplexidade alegre, ou como se possa descrever aqueles estalos de percepção que ocorrem só quando ocorrem. Se chama Desvarios no Brooklyn (2005) e começa com o narrador, em primeira pessoa, dizendo que tinha se mudado para aquele distrito de Nova York para morrer. Lá tinha vivido a infância, e naquele momento regressava para…, para estar em casa, por assim dizer. 

Tais estalos (nesse romance há uns 3 ou 4 momentos assim, e o final é um deles) me levam a um gesto singelo, na hora da leitura: ao sentir essa fisgada emocional e cognitiva motivada pela leitura, pela pororoca entre algo lido e algo vivido e registrado de algum modo nos porões da minha interioridade, eu fecho o livro. Acho que fecho e olho para outro lado, para o lado, para cima. Para o nada. Fecho para deixar o estalo ecoar, permanecendo uns segundos mais, em minha alma. (Acho que é sempre em vão que espero essa permanência, mas não importa: eu fecho o livro e me abro para a maravilha.)

Quando comecei a lê-lo, me ocorreu uma imagem, que compartilho com os leitores: Paul Benjamin Auster é dos autores que recuperou a capacidade de maravilhar o leitor adulto, porque na alma profunda de seus livros repousa sempre um indivíduo aberto à vida, ao acaso absurdo que rege a vida, à beleza fugidia da vida. 

ACASO E DESCASO

Auster foi mestre em trazer o acaso para dentro dos enredos. Mas a série de tragédias que estamos testemunhando nada tem de acaso. Nossa civilização de hiperconsumo e ecocídio nos trouxe a esse ponto de degradação ambiental, e nenhum governante até hoje preparou as cidades para enfrentar o que estamos vivendo. (Não, não temos nenhuma boa sugestão sobre o que fazer com aquele tio negacionista que elegeu negacionistas que estão ajudando a destruir legislação protecionista.)

Luís Augusto Fischer


Nesta edição

A Parêntese deste final de semana está musical. Tem uma bela seleção de álbuns latino-americanos, do Uruguai à Costa Rica, cuidadosamente elaborada por João Vicente Ribas. São artistas que estão no páreo para as premiações de música da América Latina, essas que acontecem nos próximos meses e poderemos acompanhar, já por dentro das playlists.  

Com o humor que lhe é característico, Paulo Damin escreve uma crônica sobre Porto Alegre nas canções. Duvidamos que imediatamente, ao ler essa frase, você já não esteja cantarolando uma delas, 

Juremir Machado da Silva escreve sobre a declaração do presidente de Portugal sobre o dever de o país pagar reparação por sua atuação na escravidão de africanos.  

Théo Amon, colaborador que já passou por aqui antes, apresenta a primeira parte de um ensaio sobre dois romances e um conto francês protagonizado por mulheres.

De Buenos Aires, Fernando Seffner conta sua perambulação por restaurantes à kilo. Pasmem! O professor, intrigado pela culinária portenha ser tão boa, foi em busca dos lugares onde se come mal na capital argentina.

Na série do Museu de Percurso, o local lembrado hoje é um lugar de memória da educação popular em Porto Alegre, o NEEJA (Núcleo de Educação de Jovens e Adultos) Paulo Freire.

No dia 19 de abril faleceu o filósofo estadunidense Daniel C. Dennett. Ele esteve em Porto Alegre em 2010, para participar do Fronteiras do Pensamento. Mundialmente reconhecido como um dos “quatro cavaleiros do novo ateísmo”, Cláudia Laitano foi a mediadora do evento e hoje relembra o encontro. 

E se você não viu durante a semana, aproveita para conferir o ensaio fotográfico, também de Cláudia Laitano, direto das ruas de Nova Iorque, mostrando a movimentação em torno da universidade Columbia, onde os estudantes protestam pró-Palestina.

Boa leitura!

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