Revista Parêntese

Parêntese #65: Emparedados e sequestrados

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Parêntese #65: Emparedados e sequestrados as cores e o mar/ Lagoinha/ Florianópolis/SC

Seis milhões custou a casa nova do senador Flávio, valor muito parecido com seis milhões que o acusam de ter amealhado de modo ilegal. Eu leio isso e digo: vamos então escrever sobre isso! Esta é a pauta! 

Mas logo me dou conta que não: a pauta é o agravamento da pandemia. Então é esta a pauta! Vamos dar um jeito de contar o horror que se abate sobre centenas de milhares de brasileiros neste exato momento!

Mas logo penso que não, que o que precisamos abordar é a vacinação. Aí está: vacinação, suas virtudes, a luta da ciência, as conquistas, mais a competição de mercado entre várias empresas e universidades. A pujança das soluções contra o horror da doença.

Mas como falar de vacina sem falar de negacionismo? E como falar de negacionismo sem mencionar que o presidente há pouco falou mal do uso de máscaras, baseado num estudo que ele ia ver se era mesmo da Coréia do Sul, que parece que tinha chegado a alguma conclusão assim. Enquanto isso ele não usa nem incentiva a usar, e pelo contrário sai pela rua afora em várias partes do Brasil.

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Mas se eu for falar nessa figura, como vou deixar de falar da presença superdimensionada, sem ir mais longe, de militares em postos-chave da gestão do país? E como não descer ao caso da Petrobrás? 

Aí me encontro – me pecho, como se diz aqui na redondeza – com as palavras do título. Não estamos apenas sofrendo os horrores disto e daquilo, mas estamos emparedados entre sucessivas amuradas, infindáveis como num conto do Kafka. Nossa saúde mental foi sequestrada, e nem há valor estipulado pelo seu resgate. 

Mas o bom é que a Cláudia Tajes escreveu sobre o homem dos seis milhões. E o José Falero escreveu sobre umas considerações geométricas e físicas de certa passagem da infância que resultaram… Bem, o leitor veja lá, que eu não quero sequestrar o gosto de ler a historinha.

Na entrevista, Jandiro Koch recoloca em circulação uma figura marginalizada que em outro momento foi uma autora best-seller. Com seu cuidado de historiador meticuloso, vamos encontrar um tema que nosso presente deveria conhecer melhor.

E as fotos da Tina Griebeler? Sou suspeito para elogiar, porque barco em rio é coisa que me emociona, talvez por recordações fugazes da infância, talvez por causa do melhor conto do mundo, na minha opinião deste exato momento, “A terceira margem do rio”, de Guimarães Rosa, conto que Nelson Rodrigues considerava uma oração.

Para não deixar de pensar na pandemia, Pablito foi conversar com Adriane Goulart Pinto, que encarna a tragédia. Para seguir na história das Vanuzas, temos o terceiro capítulo da novela da Nathallia Protazio. Para não perder nada da vida musical de Porto Alegre, Arthur de Faria traz a segunda parte da história do improvável sambista Túlio Piva. Para não deixar morrer a memória, Zara Gerhardt dá notícia de seu velho colégio da adolescência, que funcionava onde hoje um hotel cinco estrelas recebe turistas. 

Cristiano Goldschmidt oferece uma notícia circunstanciada sobre o acervo de Eva Schul, coreógrafa de currículo largo e muita beleza já oferecida. Duas resenhas enriquecem a edição 65 – uma sobre o romance do Falero, outra coisa o documentário sobre Pelé, recentemente lançado.

E Mayana Redin traz uma reflexão tortuosa e profunda sobre…, sobre o quê mesmo? Bem, sobre a corrida espacial antiga, entre a finada União Soviética e os Estados Unidos, mas também entre a vida e a morte, entre o que pensávamos da vida e da morte meio século atrás e o que pensamos hoje, sobre a representação que fazemos disso tudo.

— Luís Augusto Fischer

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