Revista Parêntese

Parêntese #98: Cultura sessentona

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Parêntese #98: Cultura sessentona Xico Stockinger (Detalhe da obra de Graça Craidy)

Sessenta anos atrás foi criado em Porto Alegre o Atelier Livre. Um passo de grande valor para a vida cultural da cidade. E é em torno dessa efeméride que a Parêntese se organiza. 

Para valorizar o excelente texto de José Francisco Alves, que resume com precisão esse curso de tempo, nos perguntamos o que mais rolava na cidade 60 anos atrás, mais ou menos. E não foi pouca coisa.

Muitos elementos não entraram na conta em nenhum dos textos que serão lidos a seguir: a criação do futuro Instituto Goethe em 1956. Em 1957, a inauguração do moderníssimo prédio da Reitoria da UFRGS, com um salão de atos magnífico e um salão de festas idem, além de outros espaços para a cultura. Em 1958, ao mesmo tempo eram inaugurados o Monumento ao Laçador, a Ponte do Guaíba, com seu provocante vão móvel, e o magnífico Jardim Botânico. 

A OSPA vinha de 1950, e no ano seguinte, 51, a Rádio da Universidade, de tantos serviços prestados. A capital gaúcha sediou a Universíade em 63, olimpíada universitária, reunindo gente de tudo que é parte do globo. Em 1957 ganhou sede definitiva o Clube de Cultura. Em 1958, puseram de pé o Teatro de Equipe. Em 1961, inauguração do novo Araújo Vianna, moderno, aberto, em substituição ao antigo, desmanchado no mesmo espaço onde viria a ser construída a Assembleia Legislativa. O moderníssimo e amplo Teatro Leopoldina foi inaugurado em 1964. 

Todos esses são eventos que – atenção – não estão citados nos textos desta edição. E o que está citado é outra grandeza impressionante. Leia lá a memória de Flávio Wolf de Aguiar evocando uma série de eventos que em sua adolescência viveu. Confira a excelente recuperação que faz Juarez Fonseca sobre a chegada da Bossa Nova aqui, encontrando terreno arado. A entrevista com Francisco Dalcol recupera a história do Museu de Arte do Rio Grande do Sul, que nasceu pouco antes e está firme e forte, aliás com uma linda exposição que recupera seu momento inaugural.

Juliana Wolkmer relata a fundação do curso de Arte Dramática na UFRGS. Arte que também é visual na imagem de Xico Stockinger por Graça Craidy. Já o Marcelo Kunrath Silva evoca o ambiente maravilhosamente fervilhante da UFRGS no começo dos anos 60. Eu próprio conto umas tantas coisas, especialmente relativas ao mundo da literatura. No ensaio de fotos, a Porto Alegre que se registrou entre as décadas de cinquenta e sessenta.

Seguem também nossas séries (que os leitores do PDF acessam diretamente nos links). O novo capítulo do folhetim do Caue Fonseca nos joga dentro de um condomínio de classe média em polvorosa. Arnoldo Doberstein fala da Ponte de Pedra. E Antonio Padeiro conta uma história de cortar o coração, linda e triste, ocorrida na portaria do Garagem Hermética.

Tudo o que publicamos aqui indica que a cidade, o estado, o Brasil iam bem na conjuntura de 1961: criavam, pensavam, sonhavam. E Porto Alegre se cobrava mais ainda – foi uma imagem atribuída a Iberê Camargo, de que a cidade estaria mergulhada num “marasmo cultural”, que deflagrou o processo de invenção do Atelier Livre, hoje passando maus bocados.  

Quer dizer: o marasmo diagnosticado por Iberê era, talvez, mais cobrança de invenção e ousadia do que letargia e talvez desconexão entre as muitas partes vivas da cultura. A cidade queria o futuro e o estava conquistando. Antes de 1964, de 1968, da ditadura militar. 

PS: dois amigos leitores, Giba Assis Brasil e Sérgio Menuzzi, me alertaram que a fonte do “Vem comigo que no caminho eu explico” é uma canção do Cazuza.

PS2: Uma carta aberta, escrita pela Orquestra Villa Lobos (OVL), se dirige à comunidade de Porto Alegre. O desamparo do poder público nos entristece e é de longa data. A carta diz: ”a Orquestra Villa-Lobos, uma referência de educação musical no Brasil e no mundo e que completará 30 anos em breve, está sem receber recursos da Prefeitura Municipal de Porto Alegre, sua mantenedora, há 19 meses”. Acesse aqui a carta na íntegra.

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