Editorial | Revista Parêntese

Parêntese #229: Não existe almoço grátis

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Parêntese #229: Não existe almoço grátis Giulian Serafim/PMPA

Não, não é minha a frase, nem eu a evocaria aqui a não ser por contraste. Diz a Wikipedia que a frase vem dos anos 1930, quando, nos Estados Unidos, restaurantes ofereciam almoço grátis desde que os fregueses comprassem a bebida. Aí, já viu.

Um certo escritor, Robert Heinlen, recuperou o dito nos anos 1960; mas quem deu mesmo fama a ela foi o papa dos liberais e ultraliberais, Milton Friedman, que a usou como título de um de seus livros. 

A frase voltou agora, não porque os liberais e ultras locais a tenham evocado. Aliás, eles a esconderam, se assim posso dizer, quando ela caberia perfeitamente a um novo evento aqui: sem esperar que os cadáveres da enchente esfriassem, apareceu aqui uma consultoria como que caída dos céus, a tal Alvarez & Marsal. Prometia trabalhar pro bono, que é latim para dizer “de graça”, por 60 dias. 

(Dá pra lembrar uma análise crítica do caso feita por André Cunha, professor da Faculdade de Ciências Econômicas da UFRGS, na Matinal.)

Quanta generosidade! Leite e Melo saudaram a iniciativa – essa sim, uma coisa do bem. 

Mas vem cá: então existe almoço grátis? E por que é que nós aqui precisamos acreditar que neste caso o almoço será grátis?

Desconforto parecido me ocorreu ao ler, na Zero Hora, uma reportagem dizendo que o IPH (Instituto de Pesquisas Hidráulicas) da UFRGS tinha virado o queridinho da cidade.

Lembro bem: precisou o William Bonner vir aqui e ancorar uma edição do Jornal Nacional num dos prédios do IPH para, só então, a mídia local se dar conta de que há e havia, há seis décadas, especialistas específicos para entender de águas. 

O motivo de fundo dessa ignorância: é que a mídia hegemônica do estado quase nunca quis ouvir a ciência universitária, nem quer ainda. No máximo um médico que dê conselhos, e olhe lá. E agora se espanta que haja um portento como o IPH. 

Esse é um dos pontos nevrálgicos da nossa fragilidade, no estado: as elites midiáticas não convivem, não fazem questão de conviver com as elites universitárias, nem estas são convidadas para a mesma mesa das elites econômicas, e nem falemos das elites políticas, essa gente com mandato e cargo, que nascia, até há pouco, da mídia e com o beneplácito das elites midiáticas, sem nexo com as universitárias e até mesmo sem nexo com as econômicas.

Alguém dirá: mas tu estás generalizando. E eu direi: exatamente, estou generalizando, para tentar enxergar algo além da fumaça cotidiana. E ainda não disse tudo que queria.

Luís Augusto Fischer 


Nesta edição 

Este sábado reunimos mais textos que se debruçam sobre a enchente e o passado, o presente e futuro de Porto Alegre e do estado. Danielle Heberle Viegas prossegue sua série sobre a região metropolitana e nos conta sobre a participação dos alemães no planejamento urbano durante os anos 1970. Marília Kosby relembra o rio Jacarey, que vivia livre antes de ser retificado e transformado em arroio Dilúvio. Flávio Wild, através de materiais gráficos, volta no tempo de uma Porto Alegre preocupada com o meio ambiente e uma vida mais sustentável, o que fecha perfeitamente bem com a reflexão proposta por Moysés Pinto Neto sobre as eleições municipais que se aproximam. E Igor Sperotto apresenta um ensaio fotográfico das marcas da enchente no centro da cidade.  

Mas, como nem tudo são águas, retomamos a colaboração de Gabriel Othero e sua jornada pela língua portuguesa. O professor de linguística explica algumas contradições da gramática que talvez justifiquem nossas dificuldades com a língua dita culta. Em Buenos Aires, faleceu, aos 94 anos, Nora Cortiñas, uma das fundadoras do movimento Mães e Avós da Praça de Maio. Karina de Castilhos Lucena celebra a sua vida, na seção Nossos mortos.  

Também temos duas entrevistas: Juremir Machado da Silva conversou com a escritora francesa Muriel Barbery, que esteve em Porto Alegre para participar do Fronteiras do Pensamento, e Luís Augusto Fischer com Márcio Pinheiro, que está lançando um livro sobre Chico Buarque. Arthur de Faria escreve um novo capítulo de Porto Alegre: uma biografia musical, contando sobre o fim dos Almôndegas. 

Por último, mas não menos importante, hoje é dia de Sabatina Parêntese. Logo mais, às 11h, vai rolar o encontro com o geólogo Rualdo Menegat. O evento acontece na Livraria Paralelo 30. Esperamos vocês! 

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