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Centro Cultural da UFRGS exibe a inquietação poética de Oliveira Silveira

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Centro Cultural da UFRGS exibe a inquietação poética de Oliveira Silveira Foto: Tânia Meinerz

A vírgula no título da exposição Oliveira Silveira: poeta, negro, que será inaugurada nesta sexta-feira (29/9), às 17h, no Centro Cultural da UFRGS, não é mera pontuação. O sinal gráfico está no cerne da proposta curatorial da mostra, que lança um olhar para a inquietação poética de Oliveira Silveira (1941-2009), cujo nome costuma estar acompanhado de outras vírgulas e apostos, como expoente do Movimento Negro, fundador do Grupo Palmares e idealizador do Dia Nacional da Consciência Negra.

“A produção do Oliveira Silveira é sempre vista pelo ângulo do intelectual negro, devotado às causas antirracistas, que criou o 20 de Novembro, seja pelo ativismo negro stricto sensu ou pela recepção não negra de sua obra”, observa o poeta e crítico Ronald Augusto, que assina a curadoria da exposição ao lado de Naiara Oliveira – filha do homenageado –, Sátira Machado – biógrafa de Oliveira – e Lígia Petrucci – diretora do centro cultural.

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“Como sou poeta e fui amigo do Oliveira, vi de perto como ele lidava com a linguagem, mesmo em relação a questões históricas dos negros, sempre abordando essas reivindicações como poeta, e não como ativista, sociólogo, historiador”, completa Ronald, traçando um paralelo com a figura do baiano Luiz Gama (1830-1882), “cuja obra poética aparece como uma espécie de bônus na biografia do ‘grande abolicionista’, como é apresentado à exaustão”.

A seleção de poemas exibida na mostra enfatiza o trabalho de Oliveira Silveira com a linguagem poética, ressaltando seus elementos formais e inventivos – “aspectos que as pessoas não estão acostumadas a ver, ou não querem ver na produção do Oliveira Silveira ou de qualquer pessoa negra”, pontua Ronald, organizador dos livros Obra Reunida: Oliveira Silveira (2012) e Oliveira Silveira: Breve Fortuna Crítico-Afetiva (2022).

Como exemplos das experimentações do autor de Roteiro dos Tantãs (1981) e Poema sobre Palmares (1987), Ronald ressalta as incursões de Oliveira pela poesia visual – mimetizando tambores do candomblé –, a escrita em minúsculas – herança das vanguardas poéticas dos anos 1950 e 1960 – e a metalinguagem do soneto A Rigor.

Foto: Ricardo Romanoff

“Os poetas que se aventuraram a fazer essas experiências têm um compromisso com a linguagem, o que não é pensar a linguagem, mas trabalhar a perspectiva de transformar o mundo a partir dela. Na exposição, buscamos mostrar poemas em que se vê a inquietação de Oliveira Silveira com a linguagem poética”, explica Ronald.

Recém-ingresso no doutorado em Letras da UFRGS, o poeta e crítico pretende buscar em sua pesquisa algum registro da reflexão que ouviu de Oliveira e que norteia a exposição. Ronald recorda que Oliveira citava o poeta mineiro Murilo Mendes (1901-1975), que se dizia “poeta, católico”, enfatizando a ordem das palavras e a pausa da vírgula para afirmar os dois termos em separado. “Oliveira Silveira não tinha trauma nenhum em se manifestar ou em se deixar reconhecer como um ‘poeta, negro’, desde que ninguém desprezasse essa vírgula”, assinala Ronald no texto que apresenta a mostra.

Foto: Ricardo Romanoff

A expografia da exposição, assinada por Rodrigo Shalako, cria um ambiente minimalista para a apreciação da obra de Oliveira, explorando elementos textuais em preto e branco e a forma da vírgula. O intervalo sugerido pelo sinal gráfico adquire espacialidade e temporalidade no ambiente contemplativo que reúne poemas de Oliveira, ora em texto, ora narrados em vídeo por Celina Alcântara, Duan Kissonde, Gabi Faryas, Jorge Fróes, Li Pereira, Pâmela Amaro, Ronald Augusto, Sátira Machado e Taiasmin Ohnmacht.

Naiara na sala da Faced que agora abriga o acervo do pai. Foto: Sátira Machado

Filha de Oliveira e cocuradora da mostra, Naiara Silveira fala com entusiasmo sobre o interesse que a obra e trajetória de seu pai seguem despertando. “Ele faleceu há 14 anos e, graças a Deus, nunca foi esquecido. Estou sempre trabalhando em função do legado do meu pai. Isso me alegra muito, não me é pesado, muito antes pelo contrário, quem dera eu pudesse só fazer isso”, conta Naiara, recuperando as energias após o segundo ano de atividades no Acampamento Farroupilha do Piquete Pêlo Escuro, espaço que celebra a participação da população negra no RS e tem apoio do Instituto Oliveira Silveira (IOS).

Presidida por Naiara, a instituição dedicada ao legado do poeta recentemente conquistou um espaço para acolher os cerca de 21 mil itens – entre documentos, roupas, objetos e instrumentos musicais – que compõem o acervo pessoal de Oliveira Silveira. Fruto de uma articulação com a Faculdade de Educação (Faced) da UFRGS e a Universidade Federal do Pampa, o IOS está atualmente abrigado na sala 408 da Faced – ainda sem perspectiva em relação à promessa da gestão Sebastião Melo (MDB) de uma sede para o instituto.

Leia também: UFRGS recebe acervo de Oliveira Silveira

“Meu pai se formou na UFRGS e continuou usando espaços da universidade para se reunir com escritores e amigos do Movimento Negro e para lançamentos de livros. A UFRGS não saiu dele”, observa Naiara, às vésperas da abertura da exposição no Centro Cultural da universidade.

Cocuradora da mostra, Sátira Machado ressalta que “Oliveira Silveira ainda precisa ser revelado mesmo que muitos estudos emergentes já estejam compondo sua fortuna crítica” – relembre o artigo Quem foi Oliveira Silveira?, publicado em 2021 na Parêntese, em que Sátira narra a trajetória do poeta.

Com entrada franca, a exposição segue em cartaz até abril de 2024, de segunda a sexta-feira, das 9h às 19h, na Sala Laranjeira do Centro Cultural da UFRGS (rua Eng. Luiz Englert, 333 – Campus Centro).

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Assista:
Documentário em curta-metragem Sou (2010), dirigido por Andreia Vigo

Acesse:
O site Oliveira Silveira disponibiliza informações sobre a obra e trajetória do poeta

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