Foto: Sebastian Sørensen/Pexels

#180 | JULHO DE 2023

Psicanalista reflete sobre as exigências do tempo presente: “vivemos em um contexto que mais nos aplaude quanto mais exaustos estivermos”
Foto: Sebastian Sørensen/Pexels

Foi com o álbum Ok Computer, lançado em 1997, que a banda britânica Radiohead ganhou as paradas e obteve o merecido reconhecimento pelo seu trabalho. Por esta época, Thom Yorke, vocalista do grupo, começou a sentir a exaustão do que significava estar em turnê por meses a fio, longe de casa e dos familiares, dormindo em hotéis e levando uma vida um tanto improvisada.

Certa noite, absolutamente cansado, conversou com Michael Stipe, frontman da já há tempos famosa banda R.E.M., sobre essa rotina extenuante. Talvez Thom Yorke não tenha recebido exatamente o alento que esperava, mas não ficou sem resposta. Stipe contou que muitas vezes antes dos shows, especialmente no final das turnês, ele ficava de cócoras no backstage repetindo para si mesmo a frase: “I’m not here, this isn’t happening”. Em bom português: “Eu não estou aqui, isso não está acontecendo”.

Esse mantra veio a se tornar o refrão de uma das músicas mais bonitas do Radiohead, “How to disappear completely”, parte do álbum Kid A, do ano 2000. 

A questão é que todos nós gostaríamos de desaparecer em vários momentos das nossas vidas. Às vezes passamos por uma desilusão amorosa e a única saída parece ser fugir do mundo. Outras, estamos tão assoberbados pelas más notícias que queríamos muito só desligar a realidade por um tempo. Mas posso apostar que a maior parte das vezes em que nos passa pela cabeça sumir seja quando nos vemos sobrecarregados, exaustos, trabalhando já muito além da reserva.

Tenho certeza que o leitor vai se reconhecer nesse cenário: quarta-feira, já mais pro final do que para o começo do mês, a caixa de entrada vai aumentando, as mensagens vão acumulando no celular, um livro deixado pela metade na mesa de cabeceira (“Vou ler antes de dormir”, mas sempre dorme antes de ler), no dia seguinte tem academia logo cedo (que é o único horário que dá), já tá ficando tarde, vai ser difícil ter ânimo pra exercício amanhã… E assim vai.

Parece um roteiro familiar? Pois é. É nessas situações que escuto Michael Stipe falando: “I”m not here, this isn’t happening”. Só que não sou Thom Yorke.

Nessas horas, como não sou compositor e muito menos tenho aspiração a rock star, acabo me lembrando de uma cena de infância, uma cena em que talvez muitos dos leitores já estiveram. Na lembrança, tenho uns oito ou nove anos e estou sozinho no meu quarto. Em volta, centenas de peças de LEGO, bloquinhos de plásticos de várias cores e formatos. 

Quando eu estava a sós com as minhas construções de acrílico, parecia que algo acontecia com o tempo. Ele não passava. Na minha recordação, era como se não existisse nada mais em volta. Até porque eu fui uma criança muito silenciosa. Tão silenciosa que meus pais volta e meia iam até o meu quarto para ver se estava tudo bem. Sim, tudo estava bem enquanto eu brincava. 

Volto para esta cena de infância quando estou muito cansado e quero sentir de novo, nem que seja assim, à distância, a sensação de um tempo suspenso, um tempo sem celular apitando, sem trânsito parado ou sem fascistas sendo eleitos. 

O lúdico permite uma relação muito específica com o mundo: quando brincamos, nós criamos uma outra realidade, um faz-de-conta em que o tempo passa como nós quisermos que ele passe. Um pequeno paraíso artificial sem demandas e nem necessidades. O brinquedo é a subversão da produtividade, é tanto o seu avesso quanto a sua alternativa.

O brincar é a nossa primeira forma de crítica social: quando uma criança pega da mesa um garfo e o faz voar pelos ceús da sua imaginação está impondo uma transformação na realidade. O garfo deixa de ter a sua utilidade pragmática (comer, levar o alimento à boca) e se transforma em um avião. A realidade é negada e transmutada, num processo alquímico onírico. Os objetos do mundo, na brincadeira, perdem a sua utilidade, deixam de ser produtivos.

Entretanto, quando a realidade fala mais alto em sua dimensão produtiva, vamos cada vez mais nos afastando do lúdico e, com isso, também nos distanciamos da temporalidade da brincadeira. No trabalho, na vida do dia a dia, na rotina da utilidade, nós somos capturados por um tempo que não é nosso, um ritmo que muitas vezes não dialoga com o nosso. Quanto mais abundantes forem as demandas, mais nos sentimos apressados. O brincar infantil vai sendo esquecido sob os escombros dos compromissos, vamos nos tornando esses cidadãos sérios, vamos consumindo todo nosso combustível ao ignorarmos os postos onde poderíamos parar para reabastecer. É o tão chamado – e não à toa tão em voga – burnout

Nenhuma criança sofre de burnout de tanto brincar.

O problema maior é que vivemos em um contexto que mais nos aplaude quanto mais exaustos estivermos. Repensar o nosso ritmo implica denunciar o quanto a dança de todos os outros em volta é maníaca, o que nem sempre é bem recebido. O discurso do capitalismo tardio reconhece e valoriza aquele que se acaba sendo produtivo. Quando encontramos um amigo na rua, volta e meia falamos algo como: “Eu tô bem, sempre correndo!”. Basta tirarmos a vírgula dessa frase para percebermos como somos ventríloquos de uma fala que não é nossa: “Eu tô bem sempre correndo”. 

A gente vai tirando todas as vírgulas do nosso cotidiano. Aliás, esse parece ter sido um dos efeitos residuais dos tempos pandêmicos: como estivemos tanto tempo dentro de casa, os deslocamentos foram se apagando. Não precisávamos ir de um lugar a outro, os compromissos estavam todos a um clique de distância. Ironicamente, a pandemia, justamente quando o movimento esteve mais restrito, foi um período de intensificação das demandas de trabalho. 

Quando retornamos ao mundo presencial, continuamos agindo e nos comportando como se os deslocamentos não existissem. O que tem produzido não só uma aceleração absurda da vida, mas também o seu sintoma defensivo, uma série de atrasos. Faz sentido: se não contabilizamos o tempo que levamos de ir de um lugar a outro, é óbvio que chegaremos sempre atrasados. Atrasar-se também como uma resposta, como uma forma de dizer que precisamos de mais tempo, que essa pressa toda não condiz com o nosso ritmo.

Mas há uma outra questão aí: era nesses intervalos que tínhamos contato com algo de lúdico. Ouvíamos música no carro, escutávamos algum podcast de nosso interesse na caminhada até a padaria, ou mesmo só olhávamos em volta enquanto o ônibus não chegava ao destino. Quando forçamos o mundo presencial a operar dentro da lógica virtual, quando os caminhos se tornam links, agimos como se os nossos corpos não estivessem ali, como se ainda fôssemos aqueles quadradinhos na tela. Mas não somos.

O que nos leva a um ponto bastante importante: em tempos tão corridos, como ainda podemos inscrever em nossas vidas algo que nos lembre, mesmo que vagamente, aquela lentidão da brincadeira? Como suspender a demanda incessante de produção em um mundo em que somos reconhecidos pelo tanto que somos úteis? Como transformar os garfos em aviões que possam nos levar para longe de tanto barulho?

Eu gostaria muito de perguntar para o Michael Stipe, de quem aliás sou um grande fã, como tem sido a vida depois que o R.E.M. encerrou as atividades. Queria muito saber qual conselho ele daria, hoje em dia, para um Thom Yorke que ainda está aí, na ativa, fazendo show atrás de show. Aliás, será que, depois de tanto tempo, o vocalista do Radiohead também aprendeu a desaparecer completamente?


Luciano Assis Mattuella é psicanalista, membro da  APPOA, doutor em Filosofia (PUCRS / Université de Strasbourg). Realizou pós-doutorado no PPG Psicanálise: Clínica e Cultura (UFRGS). É autor de Os futuros do passado (Editora Fi, 2017), O corpo do analista (Editora Artes & Ecos, 2020) e Um itinerário íntimo pela psicanálise lacaniana (Editora Zouk, 2022).

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