Imagem gerada via Inteligência Artificial

#180 | JULHO DE 2023

A autora propõe uma reflexão sobre o tempo na imagem cinematográfica
Imagem gerada via Inteligência Artificial

O cinema, como o conhecíamos, mudará. Quem disse isso foi o teórico do cinema Jaques Aumont, sobre as inovações surgidas nas décadas de 80 e 90, que muita gente chama de A Era do Vídeo: período de novos suportes e linguagens híbridas, intensa produção de videoclipes, do surgimento das videolocadoras e quando a videoarte como expressão artística teve seu momento mais profícuo. O tempo fílmico encontrou aqui uma bifurcação: quando a experiência audiovisual saiu da sala de cinema e encontrou a tv de tubo ou a sala de exposições, o tempo de percepção da imagem também mudou. Para quem entendia que cinema só se consumia em grandes salas escuras com uma tela de vinte metros de largura, o chão estremeceu. 

O cinema, como o conhecíamos, mudará. É nisso que penso na nova encruzilhada de sentidos em que estamos metidos. O que sabemos sobre movimentos artísticos é que vibram com o pulso do mundo e respondem às questões da sua época, daí volta e meia acontece alguma coisa que rouba nossas convicções e sentimos bater a brisa de mudança. Às vezes é um ventinho mais forte, outras uma lufada de ar quente que nos desorienta. Já atravessamos o medo do streaming, da imagem construída na vertical, já estamos mergulhados até o pescoço no consumo de vídeos cada vez mais curtos, muitas vezes enquanto assistimos a alguma outra coisa.

Nessa levada, já deu para perceber que a contemporaneidade nos trouxe para o limite da recusa da duração. Não raro ouço de amigos que escolhem o que vão assistir pela duração do filme. Se tiver duas horas não posso. Não aguento. É demais. O mesmo acontece com a relação intra-plano: quanto tempo pode durar uma imagem até que haja um corte para a imagem seguinte? Dez segundos? Dois segundos? Quanto tempo dura uma imagem até que alguém pegue seu celular e atravesse-a com outra imagem? Em questões comerciais, produtores dirão que um filme não deve ter mais que cento e dez minutos, correndo o risco de enfrentar limitações na programação das salas de cinema, que preferem filmes entre oitenta e cem minutos. Difícil imaginar alguém saindo do trabalho hoje para ir ao cinema assistir Era uma Vez na América, com suas impressionantes quatro horas e onze minutos.

Se o tempo está inscrito na nossa percepção, para nós que construímos imagens é também um assombro constatar que não há tempo suficiente para que o espectador leia o que desenhamos no espaço delimitado pelo enquadramento. O que a luz revela, o que o escuro fala, qual o percurso dos atores, como a posição dos objetos ajuda a compor a imagem, quanto tempo dura o silêncio e como ele pode narrar. Quem vai se relacionar com essa imagem e por quanto tempo? Eu mesma como espectadora, ao revisitar obras, não sinto a mesma disposição para me relacionar com a imagem. Tive uma professora que, diante de filmes longos ou com um ritmo mais lento, dizia que se levantava da poltrona e assistia de pé mesmo. Tento me apoiar na mesma técnica e às vezes até consigo, fiz isso esses dias com um filme da Agnes Vardá, depois me senti culpada.

Em A Salvação do Belo, o filósofo sul-coreano Byung-Chul Han usa a expressão Estética do Liso como explicação para um processo de perda de profundidade reflexiva da atividade artística. Han compara essa percepção a de superfícies como a de telas. Algo sem camadas, sem espessura, flat. Sensações imediatas que tem mais a ver com tato e o paladar e que geram experiências que se desintegram no instante em que são consumidas. Em um território onde tudo é imagem, é importante nos perguntarmos o que queremos delas e principalmente porque estamos abrindo mão de uma relação mais profunda com elas. De modo muito simplificado, aquilo que se opõe ao liso, segundo Han, é a contemplação. 

Concentrar longamente a vista.

Por acaso essa semana revisitei os filmes Tokyo Ga e Still Life. O primeiro é um documentário em que Win Wenders vai procurar o Japão que conheceu a partir dos filmes de Yasujiro Ozu. O segundo, um longa-metragem de Jia Zhangke em que dois personagens precisam chegar a uma cidade prestes a ser engolida por uma barragem. Em Tokyo Ga, Win Wenders chega à Tokyo vinte anos após a morte de Ozu e não encontra a paisagem filmada por seu diretor favorito. Ao contrário, se depara com uma cidade sob luzes de neon, jogos de beisebol em um cemitério, onipresentes televisões e alimentos encerados que ficam anos nas vitrines dos restaurantes para anunciar o cardápio.

Em Still Life há uma cena específica que começa com grandes planos abertos de escombros: vemos alguns homens demolindo edifícios inteiros; outros, vestindo roupas hermeticamente isoladas, borrifam algo sobre os restos de construção. A câmera passeia pelo entorno imediato, entra em um edifício em ruínas e em um dos cômodos vemos o rosto de um menino contra uma janela. O fundo está superexposto, de maneira que somos privados do entorno e tomados pelo clarão que envolve o menino. Ele então canta uma musiquinha de amor. Entendi depois de assistir aos dois que estava buscando uma certa melancolia que vem da ideia de apagamento da paisagem, algo que me ajudasse a ajustar o olhar sobre a cidade que eu vejo todos os dias, mas que sei que não é a mesma. Essa relação com os filmes só é possível, além de tudo, pelo encontro na duração.

Sempre acreditei que construir um determinado tipo de imagem, essa que não cede à voracidade da publicidade ou à cafetinagem das nossas subjetividades, é uma espécie de super poder. De tudo, aquelas que mais importam são as com as quais eu estabeleci uma relação no tempo, suficiente para que ficassem impressas em mim. Não à toa, o título em português desse filme – ao invés da tradução literal “natureza morta” – é “Busca Vida”.  Imagens assim nascem do desejo, pulsão de vida mesmo, que não negocia o inegociável. O tempo do inexorável avanço das águas, o tempo da música cantada pelo menino no filme de Jia Zhangke, espectador da paisagem em declínio. 

Espero que não façam uma dancinha com essa canção.


Lívia Pasqual é diretora de fotografia e atua há mais de 10 anos em filmes, séries e projetos experimentais. É membra do DAFB  – coletivo de mulheres e pessoas transgênero do departamento de fotografia.

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