Foto: Andrea Turner/Pexels

#180 | JULHO DE 2023

Compositor propõe um passeio pela história das mídias e sua relação com a duração das músicas
Foto: Andrea Turner/Pexels

Alguma vez você já parou pra pensar que a capacidade de armazenamento e reprodução de uma mídia pode definir coisas como… o formato da canção popular do século XX?

HEIN!?!

Que raios tem a ver uma coisa com a outra?

Pois é. Tenha a amiga ou amigo o mesmo espanto que tive eu, décadas atrás, quando me dei conta disso. De que a música popular pré-disco não tinha esse formato de três minutos – introdução-estrofe-refrão-estrofe-refrão.

Peguemos qualquer partitura de uma música de sucesso na época em sucesso eram muitas partituras vendidas (e não discos, que ainda não existiam). O formato muitas vezes é o do rondó: AA-BB-AA-CC-AA. “A” a gente pode chamar de refrão e B e C de estrofes, mas estrofes diferentes tanto em letra (quando há) quanto em melodia. Esse revezamento ABACA podia ser repetido muitas e muitas vezes. Quando Chiquinha Gonzaga tocava uma polka ou uma valsa sua com o grupo Choro Carioca isso não durava de jeito nenhum três minutos. Tampouco os bailes eram compostos de músicas dessa duração.

E isso que estamos falando em música escrita, para ser tocada por quem sabia ler partituras – em bailes, clubes ou naquela novidade do século XIX chamada “sala de estar”, onde, em seu centro, reinava absoluto o piano (substituído mais tarde pelo gramofone, a vitrola, a eletrola, o toca-discos, o rádio, a TV, a smartTV ligada na internet).

Toda a música não-escrita também durava muito, muito tempo. Uma roda de samba ou lundu, um maracatu rural, uma batucada, uma trova, um repente ou um desafio… nada disso tinha um tempo determinado pra acabar.

Mas daí inventaram o disco.

Originalmente em 78 rotações por minuto (formato que resistiu de 1900 e pouquinho até o começo dos anos 1960), com uma única música, de no máximo três minutos e pouco.

E aí a canção ou o tema instrumental precisava caber nesses três minutos. 

A adaptação foi rápida, e nos anos 1920 (quando já há algum tempo os discos tinham dois lados, com uma música em cada face) estava tudo dominado. Canção popular tinha três minutos. Choros etc também haviam reduzido o número de repetições de cada parte para caberem em três minutos.

Mas…

…e a música erudita/de concerto/clássica/chame-você-como-quiser?

Pois então.

Alguns discos, inclusive de canção popular, já tinham usado o truque de ir baixando o volume no final do lado A pra continuar a música do lado B. A magnífica versão original de “Aquarela do Brasil”, do Ary Barroso, cantada pelo Francisco Alves e orquestrada espetacularmente por Radamés Gnattali é o exemplo mais conhecido. Peças curtas de música clássica também usaram o mesmo expediente. Mas nesse caso muitas vezes 6 minutos era pouco.

É aí que surge o “álbum”.

Termo hoje novamente muito utilizado, já que há cada vez menos o objeto “disco”. O álbum era um álbum mesmo, que nem um álbum de fotografias. Fisicamente parecido até, com correia pra fechar e tudo, como aqueles álbuns de fotos do meu avô. Lá dentro, muitos discos de 78rpm, com 3 minutos e pouco de cada lado, e que continham uma ópera, uma sinfonia, um concerto. Ficou tão bacana que, dali a pouco, começaram a surgir também alguns – poucos, bem poucos – álbuns de música popular, reunindo 3, 4 discos do mesmo intérprete, gravados geralmente na mesma sessão.

Daí pra próxima mudança foi um pulo.

Nos anos 1950 começa a popularizar-se o disco de longa duração, mais conhecido como LP: long-play. No começo tinha 10 polegadas e 3 ou 4 músicas de cada lado. Logo evoluiria para o formato que tem renascido forte nos últimos anos, hoje chamado de “vinil”: até 20 e poucos minutos em cada face, geralmente com 8 a 10 canções. Ou com dois concertos de Bach, um no lado A, outro no lado B. Do Beethoven pra frente é que complicava: muita coisa seguia não cabendo. 

Só que já estamos na quarta mudança de mídia (78rpm de um lado só, 78rpm dos dois lados, LP de 10 polegadas, LP) e a canção seguia com três minutos.

Mas aí começou o rock progressivo. E os álbuns conceituais. E os LPs de jazz mais próximos do que sempre fora o jazz ao vivo.

Um disco do Pink Floyd podia ter uma música de cada lado. Assim como um LP de Miles Davis. Os Beatles podiam juntar num mesmo objeto várias canções que, juntas, contavam a história da Banda dos Corações Solitários do Sargento Pimenta. 

Tava bom, né?

Se precisasse mais, tipo uma junção poderosa de turma grande, como nos “Clube da Esquina”, a gente apelava pro álbum duplo.

Mas ainda assim se precisava virar (e/ou trocar) o disco.

Aí, quando estavam discutindo qual a capacidade de armazenamento e reprodução da nova mídia que surgia, digital, chamada CD, alguém (provavelmente da Deutsche Grammophon, mas eu tô chutando) gritou em alemão: 

– NONA SINFONIA!

Sim, o CD suporta (no sentido de ser suporte) 78 minutos de música porque… é o que dura a Nona Sinfonia do Seu Betôvi. Os alemão nunca mais tendo de levantar para virar o disco.

O resultado é que o jazz liberou-se ainda mais, álbuns conceituais podiam ter um excesso de faixas algumas vezes desnecessário… mas a canção seguia impávida, com seus 3 a 4 minutos como base (ainda que Bob Dylan, Legião Urbana e tantos outros ignorassem a regra). Até os chamados “blocos” das programações rediofônicas se guiavam/guiam por isso: de 15 em 15 minutos entra intervalo comercial. Uns 11 minutos de música, o locutor desanuncia, vem as propagandas.

E aí estávamos no começo da década de 2020, com 110 anos de consagração do formato… Quando a aceleração cada vez mais caótica da vida, num epicentro inicialmente adolescente (mas já não mais tanto) chamado TikTok concentra a canção, por exigência do seu formato, em um minuto e meio. Quando não menos. E geralmente sem introdução, já que o ouvinte leva, em média, de 3 a 5 segundos pra decidir se segue escutando isso ou rola o dedo na tela.

Claro que é uma mudança de formato ainda bastante “restrita” às centenas de gêneros pop, do piseiro ao regatón, do trap ao sertanejo. E que é uma tendência que já se vinha desenhando nos últimos anos com a necessidade, na música pop, de “ganchos” (que o pessoal chama de “hooks”) a cada 30 ou 45 segundos. Uma coisinha qualquer que mude – um tanto mas não tanto – e chame novamente a atenção do ouvinte, que já estava se dispersando e ele quase já pulava pra outra música. 

Se ambas as coisas – a necessidade do “gancho” e a canção de um minuto e meio – vão se tornar um novo padrão ainda é cedo pra saber.

É o fim do mundo, ó céus, essa juventude está perdida, nossa senhora, bom mesmo era no meu tempo, ninguém mais presta atenção em nada e só ouvem porcaria?

Olha, chê. 

Certamente foi isso que o pessoal pensou lá por 1905.


Arthur de Faria nasceu no ano que não terminou, é compositor de profissão (15 discos, meia centena de trilhas) e doutor em literatura brasileira na UFRGS por puro amor desinteressado. Publicou Elis, uma biografia musical (Arquipélago, 2015).

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