Foto: Arquivo Pessoal

#180 | JULHO DE 2023

“Tão necessário quanto fazer o melhor uso do tempo e tirar todo o seu suco é criar alternativas para acalmar a sensação acelerada da passagem do tempo.”
Foto: Arquivo Pessoal

Diante da sensação de aceleração do tempo e da velocidade como principal medida de sucesso do viver “em modo ágil”, este é um texto-convite para desvelar outras visões de concepção do tempo.

Recentemente a “lista de afazeres” ou, se você preferir, a “to-do list” foi tema central da sessão de terapia coletiva. Consciente de minha relação de amor e ódio com listas de afazeres, optei por ouvir meus colegas antes de falar. Foi rápido descobrir que todos nós, com nossas intermináveis listas de papel ou de Excel, estávamos frustrados por fazer pouco, ainda que cansados de fazer tanto. 

O problema da lista de afazeres não é a lista em si e nem a sua falta de fim. O problema é que ela se tornou um instrumento de medição e merecimento de felicidade.  Acordar todos os dias e desejar cumprir muitas e cada vez mais tarefas “sem perder tempo” vai, no mínimo, fazer você duvidar de suas capacidades. Tentar dominar o tempo a partir da noção de cota de produção não é só cansativo, mas uma forma de fazer pouco uso da relação potencialmente complexa e íntima que podemos ter, e temos, com o tempo.

Não se trata do abandono do tempo cronológico medido pelo relógio, onde as atividades mundanas se desenrolam, mas de buscar alternativas para descomprimir a relação com o tempo. Suspender a noção de tempo como medida para, enfim, perceber a qualidade do tempo não é apenas um caminho possível para forjar outra interação com a realidade. Trata-se de uma estratégia de sobrevivência. Tão necessário quanto fazer o melhor uso do tempo e tirar todo o seu suco é criar alternativas para acalmar a sensação acelerada da passagem do tempo. 

Evocar as qualidades do tempo é uma forma instantânea de desacelerar. Afinal, se o tempo já não é uma medida, como acelerá-lo? 

E quando o tempo deixa de ser só uma medida, como capturar o tempo? 

Você dormiu bem?
Quantos cafés você bebeu hoje?
De que cor você pintaria essa última hora?
Quando foi a última vez que você se sentiu amada?
Você lembra a cor do último olho que olhou?

“Sente e feche os olhos, agora imagine que o passado está na sua frente e o futuro está atrás de você. O que acontece?” Foi o que propõs Rasheedah Phillips, fundadora do Futurismo Quântico Negro (Black Quatum Futurismo, que une qualidades da física quântica e das tradições e culturas africanas), em uma palestra no festival I am Internet em 2019. A partir daquele momento, essa metáfora se instalou em mim. Algum tempo depois, Ailton Krenak, líder indígena eleito imortal pela Academia Brasileira de Letras, lançou o livro O futuro é ancestral, que defende que o futuro da humanidade depende de nossa capacidade de voltar para nós mesmos. O próprio Ailton Krenak diz que o livro é uma espécie de retorno em direção ao presente-futuro.  

E se o sentido de futuro for uma caminhada de volta sem recurso de retorno?
E se o sentido de progresso for uma falácia?
Como seria se o presente, o passado e o futuro fossem uma coisa só? 

Há um pixo quase em frente da Casa de Cultura Mario Quintana que pergunta “Haverá futuro?”. Abaixo, uma resposta miúda e magrela como uma frase escrita em Bic: “O futuro é ancestral”.  Ainda que desproporcional ao tamanho da desesperança de quem não vê futuro nessa realidade colocada, o diálogo entre entre essas duas frases é um convite, faça chuva, faça enchente, façam dias de céu aberto, para lembrar que existem outros caminhos de futuro. E parte da resposta de como encontramos futuro e adiamos o fim do mundo está na experimentação de outros saberes e concepções da realidade.

No que você tem prestado atenção?
Feche os olhos. O que você enxerga sem ver?

Com a pandemia, incorporamos uma realidade de abundante virtualidade, um novo modo dominante de interagir. Nos tornamos avatares da economia da atenção, sempre prontos para scrollar a realidade e precarizar a presença.

Com o celular na mão, cintilam 99 abas abertas, redes sociais com notificações instantâneas e suas bolinhas vermelhas brilhantes cheias de dopamina. Genocídio ao vivo do povo palestino, um porco bebê e um gatinho filhote, juntos. Vibra. Estou ao lado do meu filho, em frente aos meus amores, lendo um livro, tomando o café, olhando o mar, caminhando com minha cachorra. Um estado de desatenção crônica por conta da atenção fragmentada, da obsolescência do instante, da presença, de seu potencial infinito de se transformar em eternidade – a maior qualidade do tempo.

A narrativa vigente de fazer melhor uso do tempo, usando os mínimos recursos de como medi-lo, dissolve a atenção, achata a presença e interrompe a construção de relações, de comunhão e de reconhecimento entre nós mesmos – ainda mais humanos que avatares. 

Na necessidade de dominar o tempo, quem se subtrai é a presença. Mesmo na economia da atenção, viver as qualidades do tempo, instante e presença, é um ato milionário.

.

Onde está meu celular?

Fim



Luiza Futuro é pesquisadora e autora da @newsfromfuturo

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