Escritório Elemental, Quinta Monroy, Iquique, Chile, 2004. Fonte: Archdaily

#180 | JULHO DE 2023

“Advogo a favor do vazio cultivado no tempo e do impensado como parte constituinte do projeto de cidade.”
Escritório Elemental, Quinta Monroy, Iquique, Chile, 2004. Fonte: Archdaily

Quando pensamos em arquitetura e em urbanismo, em geral, nosso pensamento se volta a um ideário de projetos estáveis, de construções sólidas e de estruturas firmes e longevas. No maravilhoso livro “As Cidades Invisíveis”, Italo Calvino escreve:

A cidade de Sofrônia é composta de duas meias cidades. Na primeira, encontra-se a grande montanha-russa de ladeiras vertiginosas, O carrossel de raios formados por correntes, a roda-gigante com cabinas giratórias, o globo da morte com motociclistas de cabeça para baixo, a cúpula do circo com os trapézios amarrados no meio. A segunda meia cidade é de pedra e mármore e cimento, com o banco, as fábricas, os palácios, o matadouro, a escola e todo o resto. Uma das meias cidades é fixa, a outra é provisória e, quando termina a sua temporada, é desparafusada, desmontada e levada embora, transferida para os terrenos baldios de outra meia cidade. Assim, todos os anos chega o dia em que os pedreiros destacam os frontões de mármore, desmoronam os muros de pedra, os pilares de cimento, desmontam o ministério, o monumento, as docas, a refinaria de petróleo, o hospital, carregam os guinchos para seguir de praça em praça o itinerário de todos os anos. Permanece a meia Sofrônia dos tiros-ao-alvo e dos carrosséis, com o grito suspenso do trenzinho da montanha-russa de ponta-cabeça, e começa-se a contar quantos meses, quantos dias se deverão esperar até que a caravana retorne e a vida inteira recomece.

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Inspirada na ironia de Calvino, proponho uma reflexão acerca dos tempos da cidade a fim de sairmos do senso comum e de uma cultura que valoriza o estável, duradouro e consagrado e repudia o imprevisível, o espontâneo, o improvisado. Não é sem intenção, nem é neutra a ideologia que taxa de gambiarra tudo aquilo que foge à sua norma e que engessa programas e formas urbanas criando segmentações e segregações socioespaciais que inibem mudanças e atravessamentos. Trata-se de uma lógica de apartar para evitar conflitos e de criar rótulos para justificar estratificações, sob a tutela do pragmatismo técnico e da funcionalidade. Trata-se, ainda, de uma lógica que restringe o porvir ao previsível e, muitas vezes, ao mais provável, em um projeto limitante de futuro condicionado àquilo que os algoritmos podem predizer hoje.

Minha provocação é a de pensarmos em cidades abandonando momentaneamente o apaziguado verbo ser e cultivarmos o instável e provisório verbo estar. Como diria o físico quântico Carlo Rovelli, “as coisas não são, elas acontecem”. Mais além, sugiro suspendermos por um instante a predição do futuro como bula e nos permitirmos encarar o futuro como promessa. Entendermos o porvir como aquilo que ainda não existe enquanto imagem, e que não deve ser ocupado de forma apressada por uma ideia que logo será cristalizada, definida e definitiva. Escapemos aos 3Ds idílicos e prontos para consumo que a mídia hegemônica nos apresenta, com seus espaços urbanos loteados e sem conflitos, como um Éden plasmado na eternidade. Advogo a favor do vazio cultivado no tempo e do impensado como parte constituinte do projeto de cidade. 

Em vez de parques temáticos que empilham elementos fixos imutáveis e rodas gigantes perenes, a multifuncionalidade e a flexibilidade de um campo aberto, de um gramado extenso, pronto para se transformar a cada ocupação. Em vez de prédio como escultura autoral e obra acabada, espaço habitado e prenhe de mutações, convite à interação e à adaptações futuras que abriguem desejos e necessidades que ainda nem sabemos que existirão. Em vez de vias para carros, prédios para estacionamentos, casas para veraneios, espaços híbridos capazes de se adequar a diferentes sazonalidades e atividades ao longo de sua vida. 

Utopia? Diria mais uma heterotopia, como defende Foucault, ao falar da criatividade infantil que transforma a cama dos pais em barco, cabana, pula-pula… 

Mas como incorporar o vazio e o imprevisível ao planejamento e ao projeto? Cito brevemente alguns exemplos que podem nos servir de horizonte: o projeto de habitação de interesse social em Quinta Monroy, no Chile, desenvolvido junto à comunidade pelo escritório Elemental de arquitetura; o processo coletivo que acabou resultando em um pequeno parque urbano na zona portuária e periférica de Hamburgo, Alemanha chamado Park Fiction; a experiência paulista do Minhocão e mesmo exemplos porto-alegrenses como o Largo Zumbi dos Palmares, onde o vazio incentiva às mais diferentes ocupações a depender da hora, do dia da semana ou da época do ano. Além desses exemplos mais pragmáticos, a arte pode nos servir de inspiração com trabalhos como as obras pioneiras da chamada arte participativa, criada por Lygia Clark já na década de 1960. 

Lygia Clark, com sua série Bichos, propunha não mais uma escultura estática, eternizada em forma ditada pela artista, mas, ao contrário, inaugurava a possibilidade da obra ser configurada a partir de sua transformação constante pelo gesto do público. Diferente de si mesma no tempo, pelo tempo, a obra só conhecia mudanças e só fazia sentido enquanto verbo, ação no presente. A partir de dobradiças e, posteriormente, materiais moles, maleáveis, a escultura perdeu rigidez e deixou de ter forma cristalizada. Um convite à participação e à contribuição do público não mais como espectador, outrossim como co-autor. A mesma matriz de pensamento comparece no projeto do escritório chileno Elemental, em que as casas de Iquique são construídas “pela metade”, com cascas que permitam seu crescimento e transbordamento com o passar dos anos e das vidas de seus habitantes. Estruturas pensadas para diferentes tempos, desde o início. 

O elogio aqui, portanto, vai no sentido não da transitoriedade pura e simples. Sugiro invertemos algumas temporalidades, valorizando e garantindo mais duração e espaçamento nos processos e menos nos produtos. Esgarçar o tempo do projeto em suas etapas de pensamento, de criação e de participação, sobretudo, em vez de fazer projetos apressados cuja materialização seja construída para ser eterna e imutável. Esgarçar e espaçar as etapas de projeto justamente para que daí resultem construções e espaços que absorvam, com qualidade, as mudanças inerentes a tudo aquilo que está vivo. Esgarçar para a entrada de vazios, para termos mais permeabilidade ao outro, aos outros. Não se trata apenas de balizar um projeto enquanto desenho técnico e construção civil. Estamos operando no sentido de construções cívicas, mais do que civis. 

Precisamos encarar o papel político do projeto, destacadamente do projeto em urbanismo, e entender a necessidade de amadurecer suas etapas de modo colaborativo e demorado, buscando evidenciar os dissensos e dar corpo a suas manifestações, em todas suas etapas. É preciso incluir a diferença na matriz. É preciso que o projeto seja um ato, no presente, capaz de fecundar futuros até então inimagináveis. 

Escritório Elemental, Quinta Monroy, Iquique, Chile, 2015 (foto após uma década de ocupação). Fonte: Archdaily 


Germana Konrath é arquiteta e urbanista, mestra e doutora pelo PROPUR – UFRGS. Sua atuação tanto acadêmica como profissional ocorre na intersecção entre arte contemporânea, arquitetura e cidade. Atualmente é diretora da Casa de Cultura Mario Quintana. Foi curadora e coordenadora do projeto educativo da 13ª Bienal do Mercosul, gestora cultural da Fundação Iberê Camargo e trabalhou em 6 edições da Bienal do Mercosul. Acumula experiências docentes, além de projetos curatoriais, expográficos e de produção executiva, em diversos estados do Brasil e no exterior. 

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