#180 | JULHO DE 2023

Olá! Não sei se você lembra que, em 2014, o Conar (Conselho Nacional de Autorregulação Publicitária) julgou, pela primeira vez, dois casos de propagandas que faziam uso de storytelling. Naquela época, quase 10 anos atrás, mal sabíamos o que essa palavra em inglês queria dizer. Sabíamos a tradução literal (narrativa), mas não estávamos habituados com seu uso pelos departamentos de marketing, nem pelos influenciadores. 

Um breve resumo: uma marca de picolés e uma de sucos naturais inventaram histórias comoventes, bonitinhas e convincentes sobre as origens do seu produto. A sabedoria de fazer sorvetes vinha de uma tradição familiar, as laranjas eram colhidas manualmente na fazenda do seu Fulano de tal. Tudo muito lindo e politicamente correto, engajado. A publicidade funcionou. O consumo dos produtos, ou pelo menos a curiosidade para prová-los, pegou muita gente. Até que se descobriu que tudo aquilo não passava de uma jogada publicitária. 

As empresas foram julgadas. Uma foi absolvida, a outra precisou fazer adequações para ficar claro para o consumidor que aquele texto era uma fantasia, uma narrativa inventada. Agora os publicitários escreviam histórias, e essa ferramenta de conversão (termo que também iríamos aprender depois e que nada mais é do que transformar um interessado em consumidor) estava apenas começando a ser explorada.   

O desejo de debater a escrita nesta edição da Parêntese surgiu justamente a partir de uma percepção de que há um certo boom da escrita acontecendo, e que ele vem crescendo na última década. Nossa sensação não é apenas de ter mais histórias espalhadas nas redes – muitas delas fazendo uso da técnica de storytelling que, hoje sabemos, nada mais é do que contar uma história, criar uma narrativa pessoal e comovente –, mas de termos mais escritores e mais livros sendo publicados, mais grupos de escrita e de leitura, mais cursos especializados sobre mercado editorial, mais editoras e até mesmo mais livrarias.

A pandemia de covid-19 talvez tenha contribuído, em alguma medida, para esse aumento. Era necessário preencher o tempo do isolamento com alguma coisa: filmes, séries, shows e concertos online, livros. Ler e/ou escrever para passar o tempo. Soma-se a isso outras mudanças de hábito, o uso exagerado de redes sociais, propagandas disfarçadas de textos informativos, sem falar na enorme quantidade de mensagens de texto que enviamos diariamente. O mundo de hoje é da imagem, mas é também do texto – um texto em processo de transformação.

A percepção geral é de que todos nós escrevemos o tempo inteiro. Mensagens, e-mails, legendas de fotos, textos em blogs, sites, fóruns de tópicos variados, resenhas de produtos. Textos curtos ou extensos, com palavras abreviadas e tom informal, ou histórias detalhadas. Nunca antes nos comunicamos tanto por meio da palavra escrita, o que tornou essa habilidade algo essencial. Quase ninguém mais liga para falar com um amigo, mas, sim, escreve uma mensagem. 

Mas será que de fato estamos escrevendo mais? Todo mundo, hoje em dia, é escritor? Todo mundo pode ser escritor? Quem define isso? A escritora polonesa Olga Tokarczuk, em um dos textos do livro Escrever é algo muito perigoso, indaga: “será que se pode aprender a escrever como se aprende a praticar ioga ou tocar um instrumento?”. 

Assim como ela, não temos uma resposta. Mas percebemos as transformações da prática da escrita, do mercado editorial e da própria literatura em meio à vida acelerada e conectada que levamos hoje. Para provocar e aprofundar esta discussão, reunimos aqui textos que trazem tanto um panorama geral da escrita, quanto artigos e entrevistas sobre o mercado editorial, a escrita profissional, a escrita na internet, os clubes de leitura e escrita e as publicações independentes.

Existe muita coisa sendo escrita — coisas boas, mas também muitas outras descartáveis, forjadas em cima do desejo de fama, de conquistar seguidores, de fazer fortuna. Essa edição quer ajudar a pensar sobre isso.

Boa leitura!

Também nesta edição
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