Desenhos de Lara Fuke ilustram a edição da Parêntese desse mês

#180 | JULHO DE 2023

Artista responsável pelo Ensaio Visual desta edição fala sobre seu processo de trabalho e a relação da sua obra com o humor
Desenhos de Lara Fuke ilustram a edição da Parêntese desse mês

Nascida em Porto Alegre e radicada no Rio de Janeiro, Lara Fuke trabalha com dança, desenho, escrita e ilustração. Nos últimos anos, tem participado de exposições individuais e coletivas, bem como de projetos como bailarina e também ilustradora. Em sua produção, volta seu olhar para as coisas comuns que estão sempre presentes mas nem sempre são notadas. 

Munida de seu caderno, onde anota e desenha tudo o que encontra, mantém seu estado de atenção alerta. É desse percurso de observar o mundo ao redor e também de retornar as suas anotações que nascem suas produções. “Uma das coisas que eu mais gosto é de poder olhar para as coisas e pensar, poder inverter, poder olhar o contrário, poder subverter um pouquinho ou ver um pouco mais de graça onde não teria graça”, afirma a artista que, entre maio e junho deste ano, realizou sua primeira exposição individual no Museu do Trabalho, em Porto Alegre. Nesta edição da Parêntese, ela apresenta um pouco mais da sua trajetória.  

Parêntese – Como começou tua trajetória nas artes?

Lara Fuke – Acho que a trajetória só nunca parou, porque todas as crianças desenham – pelo menos a maioria das que eu conheço –, e acho que eu só não parei de desenhar. Quando eu fui fazer faculdade, entrei para o design, na UFRGS, e também tinha essa pegada de querer trabalhar com o desenho, mas na verdade acabei me formando em dança, que também é outra maneira de trabalhar com arte, através do corpo. Acho que ali foi o momento em que entendi que trabalhar com arte, para mim, não seria sobre o desenho, nem sobre dança, seria uma coisa que mistura várias outras coisas. Animação, desenho, dança, corpo. Na faculdade de dança eu acabava desenhando muito e agora quando eu desenho tô sempre pensando em corpo. Então são coisas que andam juntas. Acho que dá para dizer que a trajetória começa quando eu entro na faculdade de dança ou ela também começa no momento em que eu não paro de desenhar. 

P – Tu desenha, dança e escreve. As três coisas andam juntas na tua produção? Olhando para teus trabalhos, me parece que desenho, dança e escrita se relacionam na tua prática como uma unidade. Faz sentido? 

L – Eu não entendo que eu seja uma artista que desenha. Não. O meu trabalho se manifesta com o corpo, com o desenho, com a palavra. Ele é uma grande coisa que engloba várias práticas. Eu fico pensando que, se porventura eu quiser começar a trabalhar com, sei lá, cerâmica, que é uma coisa que eu nem sei como é que faz, eu também acho que seria mais uma manifestação da minha maneira de trabalhar. Acho que no fim das contas o trabalho se apropria da técnica, da maneira como eu resolvo trabalhar e ele toma conta. Vou começar a fazer um mestrado sobre animação agora, que é uma coisa que eu não domino profundamente, mas tô ligada, e acho que meu trabalho vai ganhando mais contorno. Eu não vou ser uma artista de animação, eu vou ser uma artista que trabalha também com animação. Que trabalha também com o corpo. Que também escreve. Então eu entendo como uma unidade. Eu faço o meu trabalho e ele é um monte de coisas. 

P – Muitos desenhos são apenas nanquim sobre papel, desenhos de linha fina, com caneta preta, algum escrito junto. Alguns desenhos nascem de exercícios de ir completando linhas. Queria que tu falasse um pouco sobre o teu processo. Como nascem teus desenhos, de onde vem tuas ideias e inspirações? 

L – Eu tenho a impressão de que eu tô sempre trabalhando, não no sentido ruim, de ser workaholic, mas no sentido de que eu estou sempre atenta. Acho que minhas ideias e inspirações nascem dessa atenção constante. Para mim é muito importante o caderno. É uma ferramenta crucial na minha prática porque eu registro ideias e registro coisas inúteis que depois viram boas ideias. Ou ideias boas que eu anoto e depois são ideias ruins. E ele também cria um registro de uma coisa para que depois eu possa voltar nela. Caderno do mês passado eu olho e “ah, aqui tem uma ideia”. Ele é um instrumento de atenção porque eu acabo usando para registrar coisas inúteis e isso me deixa atenta também a coisas que são teoricamente desimportantes mas que viram um pouco mais importantes ou eu consigo ver sutilezas em coisas sem graça. Então eu acho que essa atenção constante é muito importante e acho também que esse mecanismo de volta, de ficar se consultando, também é muito legal porque a gente acaba renovando certas coisas antigas. É uma fonte de ideias. E também ter curiosidade para explorar as coisas. Fazer exercícios, fazer aula também é uma coisa que me ajuda bastante, e também essa mistura de mídias. Às vezes buscar uma coisa que é uma prática de dança e usar de alguma maneira no desenho, ou alguma coisa do desenho mexer com o corpo. Acho que essas transposições entre as técnicas são muito ricas também. 

P – E teus locais de trabalho, quais são? 

L – Eu costumo achar que meu local de trabalho é justamente o caderno porque, em primeiro lugar, consigo levar para qualquer lugar e anotar em quase qualquer situação, fazer anotação, fazer desenho. É um espaço em que eu saio, em que eu volto. Essa coisa de ele poder ser aberto, ser fechado, são mecanismos que eu acho importantes e que moldam a maneira como o meu trabalho se desenvolve. Em termos mais práticos, eu fiz uma exposição em Maio, no Museu do Trabalho, em Porto Alegre, e aí para isso eu estava com um ateliê aqui no Rio de Janeiro, onde eu moro. Era bem pequeno. Mas foi a primeira vez que eu tive um ateliê, então foi muito legal poder deixar um espaço bem bagunçado e ir dormir no meu quarto. Porque se não eu trabalho de casa mesmo… mesa, computador, chão, parede. Mas acho que a resposta principal é o caderno.  

P – Identifico nos teus trabalhos um humor sensível, sutil, algo como uma camada de encanto sobre as pequenas coisas cotidianas, uma forma de observar e lidar com o dia a dia. Como tu vê essa relação com o humor no teu trabalho? 

L – Uma das coisas que eu mais gosto é de poder olhar para as coisas e pensar, poder inverter, poder olhar o contrário, poder subverter um pouquinho ou ver um pouco mais de graça em onde não teria graça. Acho que o humor tem essa característica de quebrar expectativas e eu acho que meu trabalho às vezes lida com isso não necessariamente no sentido da risada, mas no sentido de humor mesmo, da graça. Assim como ver graça em coisas que não necessariamente tem graça. Mas acho que de maneira geral o que acontece é olhar para as coisas de novo. Acho que acaba chegando no humor a partir disso, dessa coisa de ver frescor nas coisas. Essa quebra de expectativa me interessa e a maneira de trabalhar que chega nesse lugar me interessa… Vejo o humor como uma consequência do meu trabalho de subversão, de tentar olhar as coisas um pouquinho deslocadas, da tentativa de inversão da lógica normal. E também tem uma coisa de provocar. Essa consequência do humor tem uma tentativa de provocação, de na inversão, na subversão, eu acho que acaba criando perguntas e pra mim isso é importante, questionar as coisas. Isso é sem graça mesmo? Isso é velho mesmo? Isso é verdade mesmo? Isso é tão certo assim? Eu acho que todas essas perguntas, quando eu faço elas por meio do desenho ou por meio da palavra, acho que elas acabam gerando uma certa graça porque elas fazem perguntas e provocações.

P – Atualmente, tu tem 31,5 mil seguidores no Instagram. As redes sociais tiveram algum papel na divulgação da tua produção? Como é tua relação com as redes sociais? 

L – Adoro essa pergunta porque eu já tive muitas fases de relação com as redes sociais. Eu ganhei muitos seguidores durante a pandemia, o que foi muito legal, muito interessante, porque de fato é muito maneiro que muitas pessoas consigam conhecer o meu trabalho, pessoas de longe de mim, de outros lugares do Brasil, do mundo. Isso é muito importante e fico muito contente com isso. Mas eu já tive muitas questões com as redes sociais porque em determinado momento eu comecei a sentir que eu tava pensando em desenhos que eram para o Instagram. Eles eram só imagem. E isso começou a me dar uma certa angústia. Eu tava sentindo que meu trabalho estava sendo moldado por uma rede social que eu nem entendia direito as regras e nem sei se eu queria isso. Cansei de fazer imagem também. Não queria que meu trabalho fosse tão fugaz, tão pouco palpável. O Instagram principalmente, que é a rede que eu mais uso para trabalho, tem também esse parâmetro de comparação e de aprovação: tive tantos likes, tive tantos views. Isso também não me interessa. Eu não gostaria de pautar a qualidade do meu trabalho nisso. Depois de um certo tempo, me afastei das redes sociais no sentido de que comecei a me preocupar com fazer coisas que não são necessariamente imagens. Que são papéis que eu consigo pegar, são textos, muito longos. Comecei a me preocupar também em fazer coisas que não caibam ali. Claro que Instagram é importante, tem coisas boas, mas eu, em determinado momento, cansei dessa lógica dele, ou melhor, quis me afastar um pouco dessa lógica. Então agora eu tenho uma relação bem legal porque eu não dou tanta importância, ao mesmo tempo fico muito feliz que tenha certo alcance – e claro que varia, porque Instagram tem algoritmo. De verdade, não sei se faz tanta diferença ter 30 mil seguidores na maneira como eu trabalho agora. Eu não penso muito nisso na hora de postar, na hora de trabalhar, porque eu procuro fugir disso. Quero fazer meu trabalho, se chegar, chegou, que legal. É mais uma maneira de chegar nas pessoas, de expor meu trabalho. É isso. Passei a entender o Instagram mais como um espaço de registro do que destino dos meus trabalhos. Ele é um meio do caminho. Meu trabalho tá aqui, comigo, na vida, nas coisas que existem e não são só imagens. Isso me dá um certo alívio atualmente. 

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