#180 | JULHO DE 2023

A facilitação do acesso à internet mudou a forma como interagimos com as palavras, mas os índices educacionais e de leitura no Brasil não indicam a mesma tendência

Você acorda e já se vê tateando a superfície mais próxima em busca do seu celular. Abre o aplicativo de mensagens e checa quem te procurou durante a madrugada. Responde um zap aqui e acolá, atendendo a demandas pouco (ou nada) urgentes. Levanta, vai ao banheiro, faz suas necessidades básicas (essas, sim, urgentes) e já volta em busca do aparelho. Dessa vez abre o X, o antigo e imortal Twitter, para ver a última discussão da bolha que também parece urgente, mesmo não sendo. Pode ser que deixe sua opinião registrada em poucos caracteres ou apenas leia os milhares de perfis que fazem isso.

Ainda estamos na metade da manhã, e você já deve ter enviado dezenas de mensagens e lido outra centena. São muitos os caracteres, mas todos chegam fracionados em pequenos textos com linguagem simplificada e final imediato. Terminado o envio de mensagens textuais ou fotos, aquela tarefa acaba – sem exigir uma concentração direcionada. 

A percepção de que escrevemos e lemos mais do que em qualquer outro momento da história humana pode estar diretamente relacionada ao tempo que dedicamos aos nossos celulares. Mas, se essa for a justificativa para as horas destinadas aos aparelhos, é bom saber que podemos estar nos enganando. Em geral, quando usamos celulares, baseamos a escrita e a leitura em textos muito curtos, que não passam de um ou dois parágrafos. São mensagens ou posts de fácil compreensão, que vão direto ao ponto, exigindo pouca tolerância da nossa parte, o que programa o cérebro para uma leitura rápida e dinâmica. “A leitura no celular é de três a quatro linhas. Outra coisa é se envolver em um texto que obriga a pensar e acompanhar a narrativa, sem saber o final”, explica Wanderley Geraldi, linguista e professor aposentado da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp). 

E será que o fato de todos nós podermos escrever nos faz escritores? Marcos Bagno, professor do Instituto de Letras da Universidade de Brasília, autor do livro Preconceito linguístico (1999, Edições Loyola) e criador do conceito homônimo, argumenta que ler e escrever é um direito, mas não obrigação de ninguém: “É importante que toda pessoa saiba escrever para exercer essa habilidade quando for significativa para sua vida íntima e social, mas isso não significa que tenha de ser escritora”. 

Acreditar que estamos no ponto alto da democratização da escrita e da leitura pode parecer verdadeiro, afinal, a internet, assim como os smartphones, inauguraram um caminho de possibilidades bem mais amplas. “Toda pessoa pode escrever o que bem quiser, mas para se tornar escritor é preciso publicar, dar a público o que escreveu”, afirma Bagno. “No fim das contas, o texto escrito só se realiza e concretiza à medida que for lido e interferir na vida pessoal ou comunitária do indivíduo”.

As letras do Brasil

Em 1960, cerca de 43% da população brasileira era de analfabetos. A taxa foi reduzida para 33,6% em 1980 e seguiu baixando: em 2001, os analfabetos passaram a representar 12% da população, e, em 2015, 4% – redução de quase 40% em cerca de 50 anos. Mas nem sempre os números brutos conseguem traduzir realidades: de acordo com um levantamento de 2018, realizado pela ONG Ação Educativa e pelo Instituto Paula Montenegro, três em cada 10 brasileiros são analfabetos funcionais. A classificação utilizada na pesquisa leva em conta as pessoas que passaram pela educação formal, mas não conseguem fazer uso da leitura, da escrita e de operações matemáticas simples nas suas vidas cotidianas. “Isso se deve, evidentemente, ao fato do Brasil ser um dos países mais desiguais do mundo, com um abismo social profundo entre uma pequena minoria privilegiada, essencialmente branca, e uma gigantesca maioria formada por pessoas pretas, pardas e brancas pobres”, explica Marcos Bagno.

O que vemos hoje é reflexo da construção de um país absolutamente desigual. “O domínio da escrita, bem como o conhecimento de uma norma linguística estabelecida a partir da escrita literária consagrada, é um dos diversos instrumentos utilizados para manter vigente essa exclusão”, argumenta Bagno. Por mais de um século, de 1881 até o final da ditadura em 1985, o voto sequer era permitido para analfabetos. Quem não sabia ler nem escrever – uma porcentagem significativa da população ao longo desse período – não tinha direito a exercer sua cidadania nas urnas. 

A média de anos de estudo no Brasil pode indicar algumas razões para o descompasso entre o conhecimento da técnica e o afastamento da sua aplicação. Em 2018, o brasileiro estudava em média 9,3 anos. Um cálculo simples traduz o significado desse número: hoje, para concluir o ensino fundamental, são nove anos de estudo – ou seja, grande parte da população não chega nem à educação secundária. Isso sem levar em conta as repetições de ano, que fazem com que os estudantes deixem a escola em séries anteriores ao nono ano. E a desigualdade racial não se esconde nos números da evasão escolar: enquanto entre os brancos a média é de 10,3 anos de estudo, para pretos e pardos o número cai para 8,4. 

Mas não basta ser alfabetizado. O domínio da habilidade está intrinsecamente relacionado à prática. “O sujeito que conhece a escrita e não usa, perde a capacidade de usar essa tecnologia”, diz Gerardi. Essa é uma das razões pelas quais o Brasil tem números tão alarmantes de analfabetismo funcional. Depois que deixam a educação formal, muitos brasileiros não utilizam essa habilidade no trabalho, onde passam a maior parte dos dias. Viver em um ambiente que não incentiva a escrita e a leitura é quase um passaporte para perder essas habilidades – e as trocas diárias de mensagens pelo celular ou computador não contam exatamente como exercício de escrita. 

De conversa a gente entende

É preciso considerar, contudo, que a história da escrita é bastante recente. A presença do ser humano na Terra data de pelo menos 1,9 milhão de anos, com os Homo erectus, mas a escrita chegou muito tempo depois, há cerca de cinco mil anos – aproximadamente 0,26% do tempo de vida humana até hoje. 

Se fosse gente, a escrita não teria data de nascimento, nem nome dos pais no registro, muito menos endereço de nascença. Sua criação remonta a lugares e épocas variadas, em geral, com um mesmo objetivo: facilitar a comunicação entre os humanos. É possível, no entanto, delimitar alguns marcos importantes: foram os sumérios que criaram a escrita cuneiforme, espécie de vanguarda na tradução de imagens e sons para figuras visuais. Mais tarde, iniciativas em diferentes regiões do globo passaram para um modelo mais parecido com o que conhecemos hoje, em que símbolos representam sons e não palavras. Era a vez dos moradores das regiões de Israel, Fenícia e Aram, todas na pulsante região entre a África, Ásia e Europa. 

Durante muitos anos, a escrita foi considerada uma espécie de arte, e ficava reservada aos detentores desse conhecimento, os escribas. Cada livro, por exemplo, exigia uma cópia artesanal feita por uma dessas pessoas para poder chegar aos escassos leitores da época. A relativa popularização veio bem mais tarde, com a criação da prensa gráfica por Johannes Gutenberg, no século 15. O alemão criou uma máquina que reproduzia caracteres metálicos em massa, permitindo a ampla difusão de obras literárias e panfletos, fazendo com que mais e mais pessoas pudessem acessar os materiais – é claro, desde que soubessem ler. Pense que no início da década de 1400 – antes da prensa de Gutenberg – existiam 122 livros na biblioteca da Universidade de Cambridge, no Reino Unido. Hoje, quase 600 anos depois, são cerca de oito milhões de exemplares. 

No Brasil, a condição de colônia subordinada a Portugal fez com que as novas tecnologias demorassem muito mais tempo para chegar aqui, e mais ainda para a população se apropriar de seus usos. Resultado: grande parte da cultura brasileira seguiu baseada na oralidade mesmo quando outros países já estavam mergulhando cada vez mais em materiais impressos. “A atividade oral é um dado biológico da espécie humana, ao passo que a escrita é um fenômeno cultural e social”, explica Marcos Bagno.

Uma das principais razões para isso diz respeito ao longo período em que a educação esteve restrita à elite econômica e política do país. “O acesso à educação formal no Brasil não era para todos. A escola e depois a universidade eram lugares para as elites, não eram acessíveis para as camadas populares”, explica Vivian Fonseca, coordenadora do programa de história oral do Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea da Fundação Getúlio Vargas (CPDOC/FGV). 

Além disso, todas as culturas e tradições que nasceram por aqui eram relegadas a lugares inferiores. Assim, os conhecimentos dos povos originários – os indígenas – e das comunidades de negros escravizados, que em geral eram transmitidos às gerações seguintes pela fala, sofriam constantes processos de exlcusão. “O Brasil é fruto da contribuição de vários grupos culturais e sociais com diferentes origens étnicas. E nessa composição existem grupos, como indígenas e negros, nos quais a oraliade tem um papel muito central”, diz Fonseca. 

“Ao contrário dos espanhóis, que bem cedo criaram instituições de ensino em suas colônias, incluindo universidades, os portugueses no Brasil não fizeram nenhum esforço nesse sentido”, complementa Bagno. A primeira faculdade a surgir no país foi a Escola de Cirurgia da Bahia, em 1808. Depois, em 1827, vieram as faculdades de Direito de São Paulo e Olinda. 

Manter a educação formal e o ensino da escrita acessível somente para uma parte hegemônica da população – para manter o controle da sociedade na mão de poucos – também foi determinante para que muitas culturas fossem dizimadas junto com o genocídio de suas populações. Segundo pesquisa da USP, atualmente existem 154 línguas indígenas no Brasil. Na época da invasão portuguesa, no século 16, pesquisadores estimam que havia 600 a mil línguas no Brasil. Muitas se perderam porque eram exclusivamente orais – e quando uma comunidade perde todos os seus membros, a língua morre junto, assim como tradições, histórias e conhecimentos.

Alguém me escuta?

É fato que a internet, o telefone e as redes sociais fazem com que todos nós estejamos escrevendo e lendo mais. Não fosse a internet, você provavelmente nem teria acesso a este texto e eu nem o teria escrito. Mas é justamente o modelo de consumo trazido pela internet que faz a gente questionar: escrevemos mais no dia a dia, mas lemos o quê? Você seria capaz de dizer rapidamente o último livro que leu? 

Se a resposta foi “não”, saiba que você não é a única pessoa nessa situação. Em 2019, apenas 52% dos brasileiros haviam lido pelo menos um livro nos três meses anteriores à pergunta. A pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, publicada em 2020, indicou uma queda de 4% na comparação com os resultados de 2015. A média de leituras finalizadas em 2019 pelos brasileiros ficou em 1,06 livro ao ano, com a Bíblia sendo a obra mais lida. 

O número ecoa uma impressão do escritor tcheco Milan Kundera, falecido em julho deste ano, na obra O livro do riso e do esquecimento (Companhia das Letras, 1978): “Quando um dia (isso acontecerá logo) todo homem acordar escritor, terá chegado o tempo da surdez e da incompreensão universais”.

Como enunciado por Kundera, o processo de produção da escrita demanda um sujeito que escreve e outro que lê, assim como a oralidade exige alguém que fale e alguém que escute. Quando um dos polos começa a desaparecer, há uma proliferação de vozes e textos, mas não de leitura ou escuta. “Estamos construindo uma sociedade sem escuta. Não se ouve o outro. Na oferta de tanta fala, de tanta possibilidade de escuta, a própria escuta se reduziu”, afirma Wanderley Geraldi. 

Maravilhados com as possibilidades da escrita , impulsionada  por celulares e computadores, talvez estejamos esquecendo justamente do lado oposto: estão em extinção os bons leitores e ouvintes. 


Fernanda Simoneto é repórter da Fronteira, estúdio especializado em reportagens. Tem textos publicados no jornal Extraclasse e na revista Veja Saúde.

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