Editorial, Revista Parêntese

Parêntese #82: Lugar de fala

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Parêntese #82: Lugar de fala Foto: Carlos Edler
Sumário

Expressão que ganhou protagonismo em nossos dias, “lugar de fala” implica atenção para a trajetória e as características do autor, tanto quanto para o que ele diz, escreve, pinta. Biografia e obra, uma condicionando ou explicando a outra. 

Há um gradiente de matizes em torno desse conceito – desde aquela posição que postula uma conexão imediata entre autor e tema abordado (por exemplo, só mulheres poderiam falar sobre a condição feminina), até aquela outra que modula a interpretação do enunciado segundo a autoria.

Esta semana morreram duas figuras de proa na história recente do estado. Uma é Walter Galvani, jornalista, cuja memória é lembrada por Juarez Fonseca e por mim, na seção “Nossos mortos”. Outra é José Paulo Bisol – e aqui enganchamos uma coisa na outra. Quem era, quem foi Bisol?

Juiz, desembargador, deputado estadual e senador, assim como candidato a vice-presidente de Lula na campanha de 1989, e depois secretário de Segurança do Rio Grande do Sul. Foi radialista e poeta. Cada uma dessas facetas poderia ser a âncora para avaliar o dito lugar de fala. Mas há mais.

Em outubro de 1997, o Jornal da Universidade, da UFRGS, estampou uma longa entrevista com ele. Participei do grupo que com ele conversou, sob o comando do Juarez Fonseca e Clóvis Ott. Bisol estava numa entressafra, entre o passado político com mandato e a campanha nacional, de um lado, e sua atuação como secretário de Segurança, que viria em 99. Era um homem amargurado, como declarou, mas era também alguém que tinha vivido experiências marcantes. 

A uma pergunta sobre ele se sentir representativo do Rio Grande do Sul, ele respondeu de forma aguda: “Não. Sou filho de carroceiro e, por incrível que pareça, um tímido. Lá no fundo, desconfio de mim mesmo. Nunca me deixei levar pela tentação de me achar um grande homem”.

Saber-se filho de carroceiro, depois de tanta aparente glória, me parece das coisas mais importantes. Quem está falando aqui? O filho do carroceiro. Toda uma visão das coisas se expressa aqui – um ângulo de classe, mas mais que isso um ângulo ético. Não esquecer nem renegar a origem é parte essencial da virtude.

Bisol foi poeta que encantou muita gente (e sua obra mereceria uma nova edição). Teve a sorte de manter amigos por décadas, gente que em conjunto mereceu um interessante romance de Antônio Carlos Resende, Dançando com o destino (Movimento, 2012). Do grupo, ele foi o que veio a falecer por último – Sinval Guazzelli (1930-2001, político, governador do RS), Paulo Hecker Filho (1925-2005, escritor), Deonísio Toledo (professor da UFRGS cassado e depois professor da Sorbonne), Bisol e o próprio Resende (1929-2015, radialista e escritor).

Nesta edição 82, muita coisa linda e valiosa ganha espaço. Mirna Spritzer, atriz e professora de teatro, é nossa entrevistada. No ensaio de fotos, a lente é de Carlos Edler, com apresentação de Ângelo Chemello Pereira – que por sinal assina um sofrido, heroico perfil de um refugiado sírio

No folhetim, a Mãe do João vive um impasse: o tempo escorre, em sua lenta procissão rumo ao infinito, e o filho não é encontrado. Arthur de Faria conta a história de outra joia dos melódicos, o conjunto Flamingo

Karina Lucena entra em campo para relatar e analisar um caso recente altamente magnético das letras hispânicas – o livro de Vargas Llosa sobre Borges. Na crônica de Paloma Franca Amorim, um passado duro é evocado em parceria com a misteriosa figura de Bartleby. 

A tirinha é da Grazi Fonseca, que faz sua personagem ver as estrelas. Na seção de Tradução, um caso realmente raro: a versão para o inglês de um poema narrativo poderoso e quase desconhecido, “As cismas do destino”, do infortunado Augusto dos Anjos, por Pedro Reis.

E um conjunto que sozinho seria já todo um presente: oito letras inéditas do Vitor Ramil, acompanhadas por um texto em que ele dá notícia da criação, dos motivos, dos horizontes de cada uma delas.

Vitor Ramil que, por sinal, ancora sua obra numa consciência aguda sobre seu lugar, aquela Satolep imaginária, aquela Pelotas real, de onde sai sua voz, onde brota sua arte.

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