Revista Parêntese

Parêntese #130: Pesadelo

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Parêntese #130: Pesadelo Cena de Grande Sertão, filme de Jorge Furtado, entrevistado desta edição (Foto: Helena Barretto/Reprodução)

A gente acorda noutro dia, e o horror segue ali. Sem descanso. Seguem doendo os quase 700 mil mortos pela covid (que poderiam ser muitos menos sem os absurdos da administração federal), os mortos pelas chacinas policiais, os oprimidos de sempre sofrendo, e sem fôlego novo recebemos a notícia do assassinato do cantor Bruno Pereira (se não ouviu ainda, por favor, dê esse presente ao seu dia, ou este remix-homenagem, feito pelo André Abujamra).

Bruno era até esses dias um homem íntegro, um indigenista, que poderia estar aqui entre nós se não tivesse dedicado sua vida a fazer deste mundo um lugar decente para gente como a gente, só que nativa da Amazônia profunda. Foram assassinados ele e seu parceiro Dom Phillips, outro homem íntegro, jornalista, gente como a gente, mas por acaso nascido na Inglaterra – Dorothy Stang era nascida nos Estados Unidos, enquanto Chico Mendes havia florescido na mesma floresta que todos eles lutaram para que seguisse existindo.

Os quatro são agora apenas a memória que deles preservamos, como tristeza por sua partida, como indignação pelo horror estimulado por este governo federal, como estímulo para seguir lutando por um mundo menos cruel, menos injusto, menos
abominável do que este que deseja o inominável que ocupa a presidência da república, apoiado por gente que vive por aqui, na redondeza, com as mãos sujas de sangue indisfarçável.

A violência é parte da alma brasileira, um legado que precisamos enfrentar com mais justiça, mais igualdade. Para acabar o pesadelo.

(No desenho, Eloar Guazzelli se expressa contra essa violência. O vermelho e aquela solidão da imagem representam nossa desolação.)

Violência como a que o genial Guimarães Rosa estilizou numa obra-prima chamada Grande sertão: veredas, que Jorge Furtado e Guel Arraes adaptaram para o cinema. Nosso entrevistado de hoje é justamente o Jorge, que conta parte dos bastidores dessa empreitada, de alto risco e grande valor.

Nesta edição choramos também por dois de nossos mortos. Um é Índio Vargas, figura de político decente que foi torturado pela ditadura militar, essa mesma que cevou a mentalidade que hoje vive no Palácio do Planalto. É de Jorge Barcellos seu perfil. Outro é João Souza, jornalista falecido há pouco, cuja trajetória e cujo valor são lembrados em texto comovido de Nubia Silveira.

Frank Jorge traz o capítulo 7 da saga de Nelson pela cidade. Arnoldo Doberstein lembra de prédios de mais de um século atrás, abrigando instituições de ensino que a República criou no estado. Frederico Bartz lembra outra instituição de organização e
socorros mútuos de trabalhadores da cidade, a antiga Sociedade Espanhola, republicana, cuja sede ainda hoje está de pé, na Andrade Neves. Arthur de Faria desenha a figura de Zé Gomes, um dos tantos músicos geniais que brotaram nos anos 1960.

Uma série que já apareceu na Parêntese volta agora em espanhol – tradutores meditam sobre seu metiê. Hoje a reflexão é de Andrei Cunha.

Duas mulheres fecham este editorial e abrem nossa perspectiva: Denise Ziliotto lembra outros vazios que enchem nossa vida, enquanto Nathallia Protazio lembra o valor da agregação, da fraternidade, ou melhor, da sororidade, agora entre as escritoras que se juntam para uma foto.

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