Revista Parêntese

Parêntese #70: Imensa mas simples

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Parêntese #70: Imensa mas simples Foto: Debora M

É imensa mas simples a diferença entre as mortandades da guerra e as da pandemia, como lembrou o Mário Corso na Zero esses dias, desenvolvendo uma percepção que tá no ar. 

Nas guerras ou nos grandes acidentes, a morte se abate sobre as pessoas de modo visível, imediato, por assim dizer em pleno voo. Ao olhar para as vidas interrompidas em guerra ou nos acidentes momentosos, os sobreviventes se mobilizam para contar os feitos, lembrar os sonhos, e a vida se enche de sentido agora, depois da morte. Segue doendo mas enfim as coisas ganham significação.

Mas como se olha para as vidas perdidas na pandemia? Essas que nem chorar compartilhado a gente pode? Que nem dá tempo de chorar? Que acontecem só porque acontecem, com a ajuda decisiva do Negador-Mor?

Chorar os mortos é condição para manter a nossa saúde e a humanidade deles, dos que se foram. Eles levam consigo partes da nossa vivência, do nosso empenho, do nosso amor. Eles não voltam mais; nós não somos mais os mesmos depois da ida deles. 

Convocamos duas forças-tarefa para chorar em público. Para lembrar o psicanalista Contardo Caligaris, escrevem Lúcia Serrano Pereira, Lucy Linhares da Fontoura, Rosane Ramalho, Flávio Azevedo, Octávio de Sousa, Robson Pereira e Eduardo Mendes Ribeiro. Para lembrar o ator João Acaiabe, José Pedro Goulart e Giba Assis Brasil. Para as duas figuras, ainda presentes na nossa retina, convocamos o talentoso Alisson Affonso, que acaba de voltar do hospital, onde derrotou a covid. 

E tem os lados vivos da história presente. A entrevista com a Stela Rates, cientista de bastidores, grande figura humana, nos dá uma boa medida do valor do aprendizado, que é outro nome da vida. Como sua história, o relato do José Falero conta por que compreende os que desistem, bem agora que ele não desistiu. 

Arthur de Faria segue contando a saga dos melódicos, agora com um recuo estratégico para explicar coisas sobre o acordeão, a gaita. O folhetim da Nathallia Protázio atinge um momento de revelação: como duas crianças vivem a dureza de uma descoberta incômoda. Cláudia Tajes nos alenta com seu deboche. E Jandiro Koch examina a ficção de Rodrigo Mizunski Peres.

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Na estreia da nossa seção de pequenas ficções, Dedy Ricardo nos afoga a todos com o conto Afogado. No ensaio de fotos, Débora M nos apresenta o seu olhar sobre o Centro de Porto Alegre.

PS1: dois textos entram nessa edição produzidos pela equipe do Festival Cine Esquema Novo, que conta com o apoio do Matinal Jornalismo e do festival.  Confira aqui e aqui.

PS2: a covid levou esta semana Alfredo Bosi, um importante professor de literatura e pensador católico, que sempre expressou muita fé nas virtudes do povo, em sua sabedoria. Que ela nos ilumine.

— Luís Augusto Fischer

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