Revista Parêntese

Parêntese 40: Sem cantar vitória, mas sem desistir da batalha

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Parêntese 40: Sem cantar vitória, mas sem desistir da batalha

Se você vier me perguntar por onde andei no tempo em que você sonhava com um mito de araque no poder, de olhos abertos lhe direi: amigo, eu me desesperava. Eu já sabia. Todo mundo sabia: ninguém pode alegar inocência.

Antes de ter 25 anos, eu cantava junto: “Tenho 25 anos, de sonho e de sangue e de América do Sul”. Eram muito poucos a lembrar que o Brasil faz parte da América do Sul. Era também ele que avisava, bem-humorado: “Não cante vitória muito cedo não, nem leve flores para a cova do inimigo”. Por quê? Porque ele pode reviver e pisotear projetos que pareciam consensuados – o direito dos indígenas à sua terra, a proteção à Amazônia, o direito das crianças à infância. 

Estamos falando, refalando, as palavras de Belchior. Que figura rara, né?

Destaque na segunda leva de emepebistas, saiu do Ceará para dizer com naturalidade as palavras que tantos de nós lutávamos para encontrar. Já tínhamos Chico, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Milton; depois ganhamos uma Rita Lee autoral sensacional, Aldir Blanc com João Bosco, Gonzaguinha, Belchior, para ficar apenas em alguns. Eles disseram o que a gente nem sabia que queria dizer. 

Nossos poetas fortes, com a vantagem e as limitações impostas pelo seu meio expressivo, a canção popular, com seus escassos três minutos. E quanta coisa disseram. Quanta coisa seguem dizendo.

E ocorreu que o destino, imprevisto como deve ser, nos deu de brinde a pauta do dossiê desta Parêntese, com seu redondo número 40: Belchior. 

O Euclides Bitelo tinha escrito uma crônica, com seu habitual humor (mau humor também é humor), que começava com um comentário acerca de letra do Belchior. Esse texto encontrou uma caricatura já feita pelo talentoso Alisson Affonso, um retrato do grande cearense. Que tal tentar mais uns textos?

Saímos direto para falar com amigos. O Juarez Fonseca deu o contato com o Martim César e com a grande fotógrafa Dulce Helfer, e a Dulce sugeriu falar com o Dogival Duarte. O Leandro Sarmatz me passou o email do Jotabê Medeiros. Lolita Beretta lembrou da passagem do Belchior pelo casarão da rua do Arvoredo, história que o músico Paulinho Bettanzos nos conta. Lembrei de um depoimento do Jeferson Tenório.  

Todos acionados, todos concordados, eis aqui um modesto dossiê, que se complementa com uma playlist matadora, pelo Roger Lerina. Sete textos, uma caricatura, a sugestão para uma audição proveitosa e um punhado de excelentes imagens de um dos mais queridos cancionistas brasileiros. Fica como homenagem, lembrança, penhor de gratidão.

O senhor soube do caso do Pablito? Duas semanas atrás, ele publicou aqui uma de suas sensacionais entrevistas desenhadas. Era o Ezion o cara, um desses milhões de batalhadores invisíveis, que tira forças de onde não se espera para manter-se atuando como entregador, com sua velha bíci. O Pablito abriu uma vaquinha para arrecadar dinheiro suficiente para o Ezion comprar outra bicicleta, mas a solidariedade o brindou com mais de três vezes o esperado. Deu pra acertar o caso da bíci, tirar carteira de motorista e dar entrada numa moto. Na edição 40, Pablito volta sua atenção para a Maria Guaneci, batalhadora pelo direito das mulheres, num quadro muito desfavorável da vida brasileira. Pablito, um herói de carne, osso e traço.

Falero fala do amor, que também se apresenta no meio da loucura. Cláudia Laitano explica o conceito “decolonial”. Arthur de Faria encerra o relato da trajetória quase inacreditável de Paulo Coelho, o pianista genial de cem anos atrás. E Eduardo Vicentini de Medeiros nos dá o grande prazer de conhecer de perto a sensacional figura que foi Emma Goldman, que tinha outras ideias sobre o valor da mulher, também cem anos atrás. 

Em matéria de imagens, duas festas. Na primeira, encerramos com nesta edição a parceria bem-sucedida com o pessoal do Plantabaja, que garimpou e apresentou imagens desse enorme e maldito parêntese da pandemia. Nos ajudou a medir o tamanho das coisas, pode crer. Valeu! Que venham outras!

A outra festa visual se celebra com as fotos de Francisco Marshall, um classicista que se dedica a olhar para aquelas enormes pedras, os chamados matacões, que povoam a paisagem do sul de Porto Alegre e que, olhadas de jeito, revelam umas quantas belezas, brutas e impositivas umas, sensuais e humanizadas outras. Tudo apresentado com texto do grande geólogo humanista Rualdo Menegat. 

Tudo inspiração pra seguir sonhando com melhores tempos.

Luís Augusto Fischer

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