Revista Parêntese

Parêntese #83 – Uma obra coletiva

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Parêntese #83 – Uma obra coletiva Cidade Nanquim, de Eloar Guazzelli
Sumário

Aposto que muita gente anda com saudade de flanar pela cidade. Ainda que flanar estivesse em desuso antes mesmo da pandemia chegar… Com tanto barulho, tanta agenda para cumprir, obstáculos para vencer – da insegurança aos buracos nas calçadas –, quem aí flanou nos últimos anos?

Mas a cidade estava ali, à disposição de todo mundo antes do coronavírus, certo? 

Todo mundo quem, como diz um grande amigo. Vamos voltar rapidinho ao século 19 pra lembrar da figura tipicamente urbana do flâneur, criada por autores europeus. Aquela pessoa que andava por aí a contemplar as ruas de Paris, misturando-se a outros moradores e alcançando uma das grandes delícias da vida urbana, ser anônimo.

Agora pensem comigo – e com a geógrafa canadense Leslie Kern: esse cara só pode ser um homem branco, saudável, de classe média e hétero.

Só essa figura pode vagar em paz na cidade sem ser interrompida a cada esquina com um fiu-fiu ou algo pior. “A constante antecipação do assédio significava que a minha capacidade de passar incógnita pela multidão era sempre passageira”, diz Kern no recém lançado Cidade feminista – a luta pelo espaço em um mundo desenhado por homens (Oficina Raquel).

Ao homem do topo da pirâmide social está assegurado o privilégio de ser invisível na cidade. E tantos outros, lembra a autora, como sistemas de transporte pensados para suportar a mobilidade de quem faz trajetos lineares entre A (casa) e B (trabalho) na hora do rush.

E a mulher que anda pela cidade o dia inteiro? Que leva o caçula na creche, volta para casa, faz a comida, leva o primogênito na outra escola, vai para o seu emprego de meio-turno ou dá conta de mil e uma atividades autônomas para complementar a renda e na volta pra casa ainda passa no mercado? Se falta fôlego para ler, imagina percorrer esse zigue-zague diariamente…

Estou chamando a atenção para a perspectiva das mulheres, que são maioria na população brasileira e quase metade dos arrimos das famílias do País. Mas a própria autora diz que “considerar o gênero como a categoria primária para a igualdade também pode ser limitante”. Ao homem negro também é negada a oportunidade de caminhar pela cidade em paz. Às pessoas com deficiência idem, por razões diferentes. O mesmo vale para a comunidade LGBTQIA+ e outros grupos minoritários.

Não por acaso, as cidades vêm sendo projetadas há anos por essa mesma figura padrão que usufrui o máximo dos espaços urbanos. E se as cidades fossem pensadas por mulheres? A provocação dá título a mais um livro recém lançado, este pela editora Zouk. Uma das organizadoras, Mariana Félix de Quadros, apresenta para vocês a obra, um conjunto de artigos escritos por um grupo plural de mulheres.

Aliás, a maioria das autoras deste número #83 são mulheres. Não foi proposital, é resultado de um esforço – que aos poucos vai deixando de ser esforço – em busca de mais diversidade. Porque cada vez mais mulheres – cis, trans, brancas, negras, de origem pobre – produzem inteligência sobre qualquer assunto.

Mestre em História, Neila Prestes Araujo relembra como se formou a Restinga no que ela chama de “guerra contra a maloca”, que fez parte da política urbana de modernização da Capital. A engenheira civil e professora da UFRGS Helena Cybis escreve sobre a importância de se pensar a mobilidade para a diversidade de demandas existentes numa cidade. No texto da arqueóloga Lizete Dias de Oliveira, ampliamos o imaginário do que é a cidade com a perspectiva dos guaranis.

Duas entrevistas oferecem panoramas diferentes sobre os espaços urbanos. FêCris Vasconcellos, gerente de Produto do Grupo Matinal Jornalismo, entrevistou André Lemos, professor da Universidade Federal da Bahia, sobre os impactos da mediação da vida urbana pelas plataformas sociais. Já os jornalistas Bernardo Bercht e Tiago Medina, editor da Matinal News, conversaram com o pesquisador e escritor Joel Kotkin sobre como tornar mais humanas as cidades no pós-pandemia.

As lindas ilustrações na capa e nas páginas desta edição são do Eloar Guazzelli, que vem criando uma cidade imaginada desde os anos 1990. A obra já foi exposta em Porto Alegre, feito que o artista gostaria de repetir e, por isso, está em busca de patrocínio.

Além do formato em pdf, todo dedicado ao tema das cidades e enviado com exclusividade aos nossos assinantes, aqui no site vocês vão ler ainda outros conteúdos: o episódio 8 do folhetim Quem quer ser a mãe do João e um ensaio de Claudia Laitano a propósito dos 150 anos do nascimento de Marcel Proust. Vale a pena ainda conferir a entrevista feita pelo nosso editor-executivo, Luís Augusto Fischer, com Vítor Ortiz, diretor do podcast DesapagaPoa, publicada ao longo da semana.

Tem muito mais nesta edição, uma construção coletiva, como são as cidades, conforme nos lembra a homenageada da seção Nossos Mortos, Sandra Pesavento. Seu legado é resgatado aqui por Zita Possamai.

Pensar os espaços urbanos está no coração do nosso trabalho no Matinal. Queremos uma cidade mais pulsante artisticamente, uma administração pública mais transparente, o direito à cidade estendido a todos. Achei auspicioso que dois novos livros que repensam a cidade tenham chegado em minhas mãos enquanto preparávamos essa edição e eu me vacinava contra a Covid. Que a imunização chegue logo a todo mundo – todo mundo mesmo – e que os novos ventos nos devolvam a cidade.

Acesse ainda outros conteúdos desta edição:

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